Warriors não é Barcelona, mas pode indicar um caminho na evolução do basquete

Difícil imaginar o que é mais atraente para um americano hipster que adora esportes: o atual Golden State Warriors ou o atual Barcelona. Os dois têm valor inquestionável por si só, mas também foram feito sob medidas para esse público. O primeiro é um time que pratica um basquete envolvente e empolgante, e tem sede em uma das regiões metropolitanas que mais têm hipsters nos EUA. O segundo é a moda de quem quer se mostrar cosmopolita, internacionalizado e entendedor algo diferente do convencional. Por isso, muita gente já se empolgou para dizer que um é a versão do outro, mesmo na imprensa americana (a CBS o fez aqui, e a Fox fez algo equivalente, comparando LeBron James com Cristiano Ronaldo).

Não é uma comparação descabida. As duas equipes mostram um jogo leve e de muita movimentação, normalmente dispensando um homem fixo e grande na frente para permitir que todos os jogadores rodem a bola. É esse o motivo de Steve Kerr mostrar vídeos do Barcelona nos treinos dos Warriors (veja no link da CBS acima).

No entanto, uma avaliação cri-cri também pode dizer que um é bem diferente do outro. O Golden State se notabiliza por fazer transições rápidas e muitas vezes finalizar as jogadas rapidamente, chutando de longe. O Barcelona dos técnicos Pep Guardiola e Tito Vilanova, por exemplo. fazia o contrário: tocava muito a bola, às vezes até de forma exagerada, para penetrar a defesa adversária e finalizar de frente para a meta. O atual, sob comando de Luís Enrique, segue mais essa linha.

As duas formas de ver essa comparação são reais, e cada um adota a que achar melhor. Mas onde os Warriors realmente merece comparação com o Barcelona é na forma como se inserem dentro do momento de sua modalidade. É um time que criou uma forma diferente de jogar, evoluindo alguns conceitos que se ensaiavam e subvertendo outros. Por isso, às vezes parece tão difícil encontrar o antídoto para combatê-lo. E por isso também que tantas equipes já começam a se inspirar nessas ideias.

Um dos sinais desse papel dos Warriors é a forma como o time mudou o papel do pivô. Em certos momentos da partida, um grandalhão debaixo da cesta sempre será importante, mas o jogo do time californiano diminui muito o uso desse jogador. Com garrafões congestionados, quase impenetráveis, o Golden State valorizou o perímetro. Nesse estilo, seu pivô também precisa rodar, se afastar da cesta, passar e eventualmente arremessar de média e longa distância para não se tornar um peso morto. Já era um caminho que se tomava, mas os californianos aceleraram o processo.

A evolução do esporte sempre envolve uma equipe ou atleta criar de algo novo e os adversários se adaptando a isso. Com o jogo mais aberto e rápido, com arremessos longos mesmo em contra-ataques, os oponentes foram obrigados a seguir esse caminho. Um pivô muito lento e pesado pode ficar perdido contra um ataque desse estilo. Ele também precisará sair do garrafão, ser mais que o distribuidor de tocos e pregador de rebotes debaixo da cesta.

O Barcelona fez isso. Seu sucesso forçou as equipes a mudarem a forma de ver o papel tático de seus jogadores. Não é uma trajetória linear, tanto que o próprio clube catalão chegou a ser superado em determinado momento e teve de fazer ajustes em seu sistema de jogo. De qualquer modo, marcou um momento no futebol, forçou todos a repensarem a modalidade.

Ainda é cedo para cravar que o Golden State terá a mesma importância do Barcelona. Algumas revoluções não se sustentam, por serem difíceis de replicar em sua época (como, no futebol, a Holanda de 1974) ou por caducarem rápido (o Detroit Pistons dos Bad Boys). O estilo dos Warriors pode tomar esse caminho. Talvez o título da temporada passada não se repita nesta (o time esteve muito perto de ser eliminado pelo Oklahoma City Thunder), talvez se repita, mas a dinastia não se concretize no restante da década. Mas o fato de seu adversário na final da NBA ser o Cleveland Cavaliers que tem acelerado muito mais o jogo do que fazia na temporada passada é um sinal de que, neste momento, há um efeito real.

Texto dedicado ao amigo Corneta Europa.