Uma agradável tarde de beisebol e a chance de ver um ídolo: assim foi a vitória do Brasil no WBC

Eric é americano, e usa uma camisa com a frase “Baseball in Israel? Why not?” Mas ele não faz questão de que Israel ganhe. “Prefiro o Brasil”, diz. O cara é doente por beisebol, percebe-se. Sabe tudo sobre a carreira de Barry Larkin, o técnico do Brasil, e de Dante Bichette, pai de dois dos titulares brasileiros. “O pai hoje joga em uma liga de veteranos, e quer saber? Ele toma 4 Advil e arremessa nove entradas!”

A maior parte dos torcedores no MCU Park é de americanos. Muitos trazem o uniforme do time local, o Brooklyn Cyclones, que faz parte do sistema de base do New York Mets. Alguns se posicionam atrás do banco do Brasil com cards dos brasileiros que atuam ou atuaram na MLB esperando por autógrafos. A maior estrela, sem dúvida, é Larkin, mas muitos dos jogadores brasileiros são conhecidos pelo público de fanáticos.

Há também um número razoável de brasileiros, a maioria deles com feições orientais, provavelmente parentes dos jogadores. Eric me pergunta se eu sei por que há tantos japoneses no estádio. Explico que há uma enorme comunidade japonesa em São Paulo.

O MCU Park é um estádio pequeno, mas bastante agradável. Fica bem ao lado do tradicional Luna Park, parque de diversões em Coney Island que aparece em dezenas de filmes passados em Nova York (atrás do campo esquerdo, vê-se uma enorme montanha russa, a Coney Island Cyclone, inspiração para o nome do time local, além de um pedaço bonito de mar). Para a maioria das pessoas, pouco interessa quem joga: é beisebol, e elas são fanáticas por beisebol.

Ao meu lado, o jornalista Sergio Patrick, do grupo Band, pergunta ao cunhado, Jarrod Thomas, americano, o que ele acha do nível do jogo. “Até aqui dá a sensação de um jogo de Little League”, ele responde. O tamanho do campo, claro, ajuda a sensação. Para mim e para o Patrick, o que impressiona é a velocidade dos arremessos – embora eu já tenha visto numerosos jogos dos Mets e dos Yankees no estádio, nunca estive tão perto do arremessador.

Jarrod mora em Columbus, Ohio, e é torcedor do Cincinnati Reds. Larkin, o técnico do Brasil, é um dos maiores ídolos da história do time, e é isso, além do cunhado brasileiro, que o traz ao estádio. Ele jogou beisebol na infância, mas diz que uma avó e um avô, um de cada lado da família, é que o levaram a ser tão fanático pelo esporte. Sobre Larkin, se entusiasma: “É uma lenda. Campeão da World Series pelos Reds, membro do Hall da Fama, jogou a carreira toda no time, além de ser um dos melhores shortstops da história.”

O jogo não é das grandes ligas, mas é bom. O time do Paquistão surpreende com uma rebatida no primeiro arremesso. Os paquistaneses se seguram até a terceira entrada, quando o Brasil marca três corridas – e abre a porteira. Na quinta entrada, o campo direito Juan Carlos Muniz rebate um inside the park home run para levar o placar a 6 a 0. Na sexta entrada, Umair Bhatti, catcher paquistanês, consegue o que seria uma rebatida dupla, mas não para na segunda base e é eliminado ao chegar à terceira.

É o suficiente para Larkin torcer o arremessador: sai o experiente Jean Tomé para a entrada de Eric Pardinho, o fenômeno de 15 anos em que o Brasil aposta para o futuro. Segundo Patrick, há 16 olheiros no estádio hoje para assistir principalmente a ele. Pardinho elimina dois rebatedores para acabar a entrada, mas não volta para a próxima.

A sétima entrada passa em branco, mas na oitava o Brasil tem diversos walks e lota as bases mais de uma vez, e chega a 10 a 0, o que é suficiente para terminar o jogo na regra de misericórdia.

O Brasil ganhou a primeira, conforme esperado. O time a ser vencido na competição, porém, é Israel, que tem 26 americanos entre os 28 jogadores, a maior parte deles jogadores das ligas menores americanas ou ex-jogadores da MLB. Além disso, Israel joga em casa – como qualquer time israelense que jogar no Brooklyn, onde residem uma numerosa comunidade judaica.

Para a torcida americana, na verdade, tanto faz. Atrás de mim na arquibancada, um grupo de latinos que começou a tomar cerveja as 11h da manhã dá risada, comenta alto e brinca com os jogadores e com Larkin. Foi um bom jogo de beisebol, Coney Island tem o melhor cachorro quente do planeta e todos estão felizes. Provavelmente até os paquistaneses.