O desempenho não foi o ideal, mas o resultado foi o melhor possível. André Rienzo reconhece seus problemas na partida que abriu contra o Panamá nas eliminatórias do World Baseball Classic. Mas também mostra orgulho da campanha brasileira, que conseguiu uma inédita classificação para o Mundial de beisebol. Orgulho, sobretudo, pelo que considera um “cala a boca” na fanfarronice dos panamenhos.

“Antes de nosso primeiro confronto, eles não estavam treinando. Ficavam brincando, dizendo que quem não rebatesse um home run na gente teria de pagar a cerveja mais tarde”, conta. “E fazendo isso na nossa frente.” Segundo ele, esse tipo de comportamento ajudou a unir e a motivar os brasileiros para buscarem as vitórias. E elas vieram: duas sobre o Panamá e uma sobre a Colômbia.

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Nessa entrevista ao ExtraTime, que teve trechos publicados na edição de janeiro da Revista ESPN, o arremessador conta os bastidores da classificação brasileira. Das dificuldades de entrosamento com o resto do time ao modo como a seleção já está encarando a fase decisiva do torneio, realizada em março. E ele ainda revela: “O Chicago White Sox já me avisou que tenho chances de jogar na MLB em 2013”.

Como foi o processo de se adaptar à equipe, se integrando ao elenco só na reta final, já no Panamá?
Ficou corrido, mas eu já conhecia quase todo mundo antes. Infelizmente o pessoal do White Sox não liberou, fiquei insistindo para voltar antes e treinar um pouquinho, mas não deu certo. Mas o bom foi que eu já conhecia. Foi mais fácil jogar. O time estava bem unido, o clima estava legal. Não foi difícil o contato. O contato com o Yan [Gomes, catcher da seleção], foi a primeira vez que jogamos juntos. Vamos ver se na próxima já estamos nos entendendo 100%.

Conversando com o Caldeira [Tiago Caldeira, técnico de arremessadores da seleção] antes das Eliminatórias, ele disse que uma de suas maiores preocupações era o fato de você ter de arremessar para um catcher que conheceria apenas dois dias antes da partida. Como você e o Yan se acertarem?
O Yan se mostrou um grande catcher. O problema é que às vezes o catcher e o arremessador podem ser bons, mas não se entenderem. Lá no Panamá a gente só teve 3 dias antes do primeiro jogo. Ele conversou com todo mundo, mas na hora de jogar é sempre diferente. No começo, não foi entrando, mas a coisa foi melhorando com o tempo. Da próxima vez vai ser melhor.

Seu desempenho não foi bom no geral. Só foi uma corrida para sua conta, mas cometeu dois erros, cedeu walks, wild pitch. Foi nervosismo?
Eu quis resolver tudo sozinho. Todo mundo falava que confiava em mim, eu tinha treinado bem, queria resolver, representar lá com tudo o que eu sabia. Aí ficou complicado, cedi muito walk. Felizmente consegui sair de algumas situações piores. Os erros de pickoff foram também de entrosamento com o Yu [Daniel Matsumoto, primeira base]: ele disse depois para eu não virar muito e jogar forte, porque a luz dava direto na cara dele e estava difícil de ver. A gente foi se encontrando. Eu cheguei por último, e não ter treinado tanto junto atrapalhou.

Essa ideia de “resolver tudo sozinho” é porque você é o brasileiro mais perto da MLB tirando o Yan?
Acredito que sim. A gente sabia que podia ser a última oportunidade do Brasil mostrar que sabe jogar. Não é um beisebol que ia deixar as pessoas de queixo caído, mas sabemos jogar e que estávamos lá para isso. Um problema da filosofia do Brasil em campeonatos internacionais era entrar para não perder. Dessa vez, entramos para ganhar. Eu queria mostrar muito isso, sobretudo na velocidade.

Como foi o trabalho com o Barry Larkin? Os jornalistas americanos que acompanharam ficaram surpresos com o trabalho dele.
Ele é muito bom porque ele te anima 100% do tempo. Ele nunca fala nada de errado sobre você na frente dos outros. Se for apontar algo, chama de lado e tenta corrigir. Mas ele nunca coloca para baixo. A gente errou, mas a conversa era amigável depois. É diferente de muitas seleções em que os erros eram maiores e a pressão era em cima. Desse jeito, ele conseguiu unir o grupo. São dois ou três que jogam no Brasil, mais alguns na Venezuela e na Dominicana, um grupo do Japão, o pessoal dos Estados Unidos. Era um grupo que não estava junto há muito tempo. Tinha cara do Japão que eu não via há cinco anos. O contato foi muito fácil, muito bom. A gente ganhou porque era um time. Colômbia, Panamá e Nicarágua não eram um time. Eram pessoas querendo fazer alguma coisa.

Conversei com o Larkin em Ibiúna e ele disse que o Brasil poderia se aproveitar por ter jogadores de cultura americana e oriental ao mesmo tempo, coisa que os adversários não teriam. Você sentiu que eles não sabiam se livrar de algumas situações que o Brasil colocava?
O Larkin sempre deixou muito claro que uma das coisas que fez ele vir para cá era o respeito que o Brasil tinha pelo beisebol como esporte. Não importa de que parte do mundo cada um veio, a gente respeita muito o jogo. Justamente o que não se viu do outro lado nessas Eliminatórias. Antes do jogo contra o Panamá, eles não estavam treinando no campo. Estavam brincando, meio que comemorando. Diziam que quem não mandasse uma bola para fora ia pagar a cerveja mais tarde.

A TV panamenha tratava a seleção brasileira quase como piada. Isso chegou a vocês?
O Panamá inteiro estava subestimando o Brasil. Ficamos muito putos com eles. Falavam coisas ridículas. O Panamá era “o” time: tinha Carlos Lee, Carlos Ruiz. Aí, eles entraram achando que iam chutar a gente. Isso fortaleceu o grupo. Houve uma pesquisa da porcentagem de chances de cada time e deram 90% de possibilidades de vitória do Panamá. Uma coisa assim. O Brasil tinha ganhado de 16 a 0 deles no futsal. Quando andávamos na rua, viravam para a gente dizendo que meteriam 30 a 0 no beisebol. Em uma entrevista, me perguntaram se eu estava pressionado por ter de jogar contra o Panamá. Falei: “A pressão é de vocês, vocês são os favoritos. A gente só joga futebol, né? Talvez comecemos a chutar a bola no meio do campo”. Perguntaram para o Yan se ele sabia que o Panamá ia ganhar. Ele respondeu que nem precisaríamos jogar, então. A gente fazia questão de dar entrevista só para poder rebater essas coisas.

Nos dois jogos mais delicados, contra o Panamá, o Thyago Vieira entrou para fechar. Ele tem 19 anos e, no Seattle, foi abridor e não teve um ano tão bom. Mas entrou e fechou os jogos. O Murilo acabou sendo o arremessador mais importante do time entrando no meio dos jogos. Como foi a montagem desse time, a escolha de jogadores para cada função?
O Larkin confiou muito no Murilo. Eu não vi como foi a preparação no Brasil, mas eu conheço o Murilo e muitos que estavam ali. O Murilo, o Jean Tomé, começaram a treinar um mês antes de a concentração começar. Ninguém vê o que a gente faz antes, mas ela é muito maior do que o jogo. A gente se prepara muito mais. E não tinha vaidade. No começo, se falava muito de Yan Gomes, Paulo Orlando, Rienzo, Murilo Gouvea. Mas na verdade não foram só esses que decidiram. Foi o Leonardo Reginatto na terceira base, o Pedro Ivo de shoto [shortstop]. O Felipe Burin [segunda base] que botou o peito na última bola. Foi o Muniz que bateu o hito [rebatida] contra o Panamá no primeiro jogo para virar o placar. O Rafael arremessou um último jogo excelente. A vaidade ficou de lado. Se nome ganhasse, o Carlos Ruiz e o Carlos Lee ganhariam o jogo. O Thyago veio treinando muito forte e mostrou que podia ter um papel importante. O Murilo também.

Na TV panamenha, foi quando o Murilo entrou que eles sacaram que podiam perder o primeiro jogo.
No começo, eles estavam de chacota mesmo. A minha parte foi ir para lá e jogar forte e mostrar que não estávamos com medo deles. Eu acho que podia ter feito mais. Todo mundo naquele time tinha uma coisa na cabeça: mudar o beisebol brasileiro.

Houve uma razoável repercussão sobre o resultado. Os jogos entraram entre os assuntos mais comentados do Twitter no Brasil. Você acha que isso pode realmente mudar o jogo?
Eu estava lá, mas, depois de cada jogo, a gente via que tinha mais de 100 comentários no Facebook. Isso é uma satisfação para a gente. Cada um estava ali querendo só mostrar que o Brasil tem beisebol e que tem capacidade e potencial. E a gente viu que aconteceu um pouco isso. O pessoal envolvido com o beisebol estava todo dia ali com a gente. A gente viu que repercutiu. Era só isso que a gente queria.

O que você espera do grupo do Brasil no World Baseball Classic?
O Japão não terá os jogadores da MLB e eles farão falta, mas a liga japonesa é muito forte e pode repor esse espaço. Cuba é sempre forte, mesmo que esteja com desfalques. Acredito que a China seja o oponente mais fraco. Mas o Brasil vai entrar em campo pensando em vencer qualquer time, como fizemos nas Eliminatórias no Panamá.

Você sentiu algum retorno dos americanos sobre o desempenho seu e do Brasil?
Meu chefe deu uma brincada pelo excesso de walks, mas disse que era a primeira vez que me via arremessando a 96 milhas por hora. Ele disse que o meu braço ainda podia tirar mais coisa. Eu tirei só coisas ruins do meu jogo porque queria fazer mais e ajudar de forma melhor. Alguns colegas mandaram mensagem parabenizando, porque ninguém acreditava na gente.

E como está sua situação nesta temporada?
Fui para a Venezuela, no Tiburones de La Guaira, jogar um pouco no campeonato de lá. Foi mais pela experiência, do contato com um jogo grande, com muita gente. Como fui colocado no 40-men roster, vou para o treino do time principal dos White Sox. Já me disseram que há chance, sim, de eu estar na MLB no ano que vem.

Uma pendência que você tinha para essas férias era pegar o suplemento que teria causado o seu doping e mandar para os norte-americanos fazerem os testes. Já saiu o resultado?
Já. Tinha “zero-vírgula-um-monte-de-zero-um%” de substância ilegal dentro do suplemento. Isso equivale a uma colherada que tomei naquele mês. A MLB vai tomar providências por mim, mas tem de fazer uma outra série de exames, ver se aquela substância estava mesmo no suplemento, se eu que não tinha posto. Não sei como farão isso. Eles vão fazer os exames, mas falaram que não podiam processar a empresa por mim porque eles já criaram o selo do atleta para certificar os suplementos e eu tomei aquele por minha conta. Muita gente diz para eu processar os caras, porque aquela substância não estava na descrição, mas a única coisa que eu quero é tirar a mancha no currículo. Eles já estão com o suplemento lá. Ano que vem o suplemento vai ganhar um certificado.