Precisamos conversar sobre as aposentadorias precoces da NFL

Peyton Manning é quase uma força da natureza, e sua aposentadoria ganhou ares de fim de uma era no futebol americano. No entanto, o que pode realmente ser início de uma nova fase na NFL foi o que aconteceu depois. Uma série de jogadores ainda jovens e capazes de jogarem em alto nível anunciou que estava pendurando o capacete. E deixou no ar a pergunta que ninguém quer fazer com medo de ouvir a resposta: foi por causa das concussões?

Marshawn Lynch tem 29 anos e anunciou sua aposentadoria durante o quarto período do último Super Bowl. Um ano antes, o fato de ele não ter a oportunidade de fazer uma corrida nos segundos finais foi considerado um dos maiores erros da história da final da NFL. Jerod Mayo, também 29, deixou o esporte em que conquistou um título e foi selecionado duas vezes ao Pro Bowl. Dias depois, foi a vez de Calvin “Megatron” Johnson, 30 anos, recordista de jardas recebidas em uma temporada e que liderou o Detroit Lions em jardas recebidas e touchdowns em 2015. Por fim (por enquanto), BJ Raji, outro de 29 anos, disse que fará um hiato e não jogará em 2016, ainda que considere a possibilidade de retornar no futuro.

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Todos esses jogadores já tiveram momentos mais brilhantes na carreira. Vinham sofrendo com contusões e seus valores no mercado provavelmente cairiam na próxima negociação de contrato. Mesmo assim, estiveram entre os melhores da liga em suas posições e ainda jogavam em alto nível, argumentos suficientes para convencerem algum time a oferecer um contrato de alguns milhões de dólares por três ou quatro anos.

Nenhum desses jogadores deu motivos muito claros para encerrar a carreira prematuramente, mas é inegável que as pessoas envolvidas no dia a dia da NFL (dirigentes, jogadores e jornalistas) pensaram que pode ser uma reação à crescente quantidade de informações sobre os efeitos de longo prazo das repetidas pancadas na cabeça – um elemento quase natural do futebol americano. Estudos em ex-jogadores já mortos mostram como as concussões danificam o cérebro, causando problemas como depressão e demência anos após o fim da carreira.

Por enquanto, há poucos casos de aposentadoria precoce oficialmente creditada à encefalopatia traumática crônica (CTE na sigla em inglês). Chris Borland, ex-San Francisco 49ers, deixou o futebol americano aos 24 anos após uma temporada de NFL após refletir em cima de relatos da difícil vida dos ex-atletas de sua modalidade. Sidney Rice fez o mesmo aos 27 anos devido ao seu próprio histórico de concussões.

Marshawn Lynch, dos Seahawks, passa pela marcação de Chris Borland, dos 49ers, em novembro de 2014. Os dois jogadores já encerraram a carreira (AP Photo/Tony Avelar)

Marshawn Lynch, dos Seahawks, passa pela marcação de Chris Borland, dos 49ers, em novembro de 2014. Os dois jogadores já encerraram a carreira (AP Photo/Tony Avelar)

Ainda que Lynch, Raji, Megatron e Mayo, e também Patrick Willis e Jason Worilds – que encerraram a carreira no início de 2015 aos 30 e 27 anos, respectivamente – tenham razões individuais, é de se estranhar tantas aposentadorias com jogadores de 30 anos ou menos que ainda tinham futuro na liga. Já são duas temporadas seguidas com esse fenômeno, o que pode indicar o início de uma tendência.

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Os jogadores cada vez mais sabem o que aconteceu com alguns de seus antecessores na NFL, e talvez já estejam reagindo a isso. Não deixaram de jogar futebol americano, mas podem adotar uma outra postura em relação à carreira, sobretudo as estrelas. Ficam na liga o tempo que considerarem suficiente para “fazer a independência financeira” (para usar uma expressão comum aos atletas brasileiros). Se o corpo ainda aguentar bem, vão jogando. Se começarem a sentir o desgaste da entrega física necessária para atuar em alto nível, a aposentadoria não é um fantasma tão assustador assim.

Nesta semana, a NFL já assumiu que sabe dos efeitos das concussões no cérebro dos jogadores, então não há mais necessidade de fingir que não sabe do que se fala. Então, é hora de a liga, os torcedores e a mídia encarar a possibilidade de a CTE estar encurtando a carreira dos atletas. Afinal, é preciso entender o fenômeno, e não ficar com esse silêncio constrangedor.


  • Tito Ortiz

    Futebol Americano nada mais é que um esporte étnico.

    • Victor Cotrim

      COmo tem gente q fala m….

    • Gabriel Reis

      Rugby é bem mais legal…

  • William Aparecido Brandino

    O que vai acabar é o prêmio Comeback of the Year… machucou, parou!!

    Sério agora: CLARO que as concussões tem a ver com esse “medo” de jogar novamente. E isso já vem ocorrendo desde o High School, onde as crianças estão preferindo Basquete a F.A.. Beisebol é outro assunto a abordar.

    Como que, nos EUA, esporte é RELIGIÃO, não LAZER, venho com a ousadia de dizer que estão crescendo novos “ateus”.