Por que a Copa do Mundo de hóquei no gelo é a mais legal dos esportes americanos

O hóquei no gelo muitas vezes é visto como um ser estranho no grupo de grandes ligas esportivas da América do Norte. Apesar da popularidade absurda no Canadá, só tem real penetração em algumas regiões dos Estados Unidos. Esse cenário se reforça no Brasil, com a NHL ficando fora da TV por vários anos e tirando de uma geração o contato constante com tacos, discos e patins. Mas, se é preciso algo para afirmar a posição da modalidade na disputa por espaço com futebol americano, basquete e beisebol, a Copa do Mundo está aí.

Todos os grandes esportes norte-americanos fazem esforços para se internacionalizar. O futebol americano tem algumas ligas nacionais pelo mundo e insinua abrir uma franquia da NFL em Londres. O basquete tem muita popularidade em todos os cantos do globo, competições domésticas e continentais fortes e um Mundial tradicional. O beisebol voltou aos Jogos Olímpicos e tem no World Baseball Classic um torneio com enorme potencial. Mas nenhum deles tem o que a Copa do Mundo de hóquei no gelo oferece.

A grande arma do torneio recriado pela NHL em parceria com IIHF é relevância. Não a importância oficial de ser o melhor do mundo, mas a real, de fazer que jogadores, torcedores e jornalistas sintam que ela realmente define quem são os melhores do mundo. Parece uma questão puramente semântica, mas não é.

Durante décadas, a NHL era a liga mais rica e poderosa do hóquei no gelo, mas ninguém tinha convicção que ela realmente tinha os melhores jogadores. Países comunistas como União Soviética e Tchecoslováquia tinham seleções fortíssimas, possivelmente melhores que a de Canadá e Estados Unidos, e seus jogadores continuavam nas ligas domésticas por restrições políticas. Assim, canadenses e americanos sentiam que era preciso vencer uma seleção soviética, por exemplo, para saberem se eram realmente os maiorais.

Essa cultura internacional do hóquei no gelo permaneceu viva. Suécia, Finlândia, Rússia, República Tcheca e Eslováquia têm jogadores excepcionais (hoje, já atuando na NHL, ainda que muitos sigam em alto nível em ligas europeias) e são capazes de formar seleções tão fortes quanto as de Canadá e EUA. A torcida sabe disso. Os jogadores também. Essa demanda por partidas de seleções faz a NHL adotar algo impensável para qualquer outra liga da América do Norte: parar sua temporada regular para que todos os atletas possam atuar nos Jogos Olímpicos (ainda há dúvidas se essa prática seguirá para Pyeongchang-2018).

As outras duas modalidades norte-americanas que têm bom nível de internacionalização não têm isso. O basquete é popularíssimo em quase toda a Europa, na América Latina e na Ásia, países como Espanha, Sérvia, Argentina, França, Rússia, Brasil, Croácia, Lituânia e Austrália, entre outros, podem montar equipes bastante competitivas e até bater uma seleção americana que não estiver com força total. Ainda assim, pouquíssimas pessoas realmente acharão que os Estados Unidos perderam o posto de grande potência do esporte. Os americanos são os melhores, e essa condição não é colocada em dúvida nos Jogos Olímpicos ou na Copa do Mundo de basquete.

A situação do beisebol é parecida. Ainda que República Dominicana, Venezuela, Japão, Coreia do Sul e Cuba possam formar seleções capazes de vencer os melhores dos Estados Unidos, o público americano simplesmente continuará achando que seu país é o mais forte. Isso mina o WBC, que tem potencial para ser uma competição espetacular, mas não tem a atenção que merece no mercado americano (no Japão, é recordista de audiência) e é rejeitada constantemente por jogadores que preferem seguir a pré-temporada a fazer jogos competitivos.

O hóquei no gelo tem o pacote completo. Ainda que a dependência de clima frio limite a globalização da prática do esporte, quem o pratica está dedicado à valorização de competições entre nações. Nesta terça, o clássico entre Canadá e Estados Unidos terá um clima de tira-teima entre os dois países mais fortes do momento que, infelizmente, não se vê em mundiais de outras modalidades. Ou porque as grandes rivalidades estão um degrau abaixo do topo (Sérvia x Croácia, Brasil x Argentina, França x Espanha no basquete, Japão x Coreia do Sul no beisebol), ou porque um dos lados tem convicção de ser melhor que o outro (Estados Unidos x Espanha no basquete, EUA x República Dominicana no beisebol).

Claro, a Copa do Mundo de Hóquei no Gelo está em sua primeira edição na fase atual e ainda precisa crescer. Incluir uma seleção europeia foi interessante para reunir bons jogadores de países que ainda não formam seleções de altíssimo nível. A presença de uma equipe de canadenses e americanos jovens também ajuda a chamar a atenção do público. Mas o ideal é que, com o tempo, ela leve ao desenvolvimento de mais seleções, a ponto de países como Eslováquia (principal vítima desse formato atual), Suíça, Alemanha, Bielorrússia e Noruega terem suas próprias equipes e deixar o torneio mais volumoso.

De qualquer modo, é um torneio com alto potencial de partidas acirradas, com envolvimento grande do público. E isso o hóquei no gelo pode jogar na cara das outras ligas americanas. Só ele tem.


  • Fabio Lira

    É ótimo, mas, seria uma pena se a TV mostrasse uma partida aqui e outro sabe se lá quando.
    Quando fiquei sabendo que a copa tinha começado fui procurar os jogos na grade e esse Canadá vs USA é a única coisa que eles irão passar, triste ver a ESPN fazendo isso.

    • http://www.trivela.com Ubiratan Leal

      No Watch ESPN estão passando todos os jogos. E vamos ver como vai ser na fase final do torneio.

  • Kagarro

    Nesse esporte ainda ficam caindo na porrada direto? Isso continua sem punição? Se sim não me agrada assistir… a menos que tivesse um time brasileiro… Deveriam escalar o Minotauro, Werdum, Anderson Silva, Cigano… duvido que não seriam campeões!!!

    • JOAO PEREIRA

      Kagarro no UFC/NHL!

  • Caixista da Nintendo :D

    Como tem gente q Nu00c3O gosta deste esporte tu00e3o incru00edvel ? nnQuem dera se o Brasil nevasse….