Por que a arbitragem errou feio na jogada que decidiu Dodgers x Mets

O texto da lei, em qualquer esfera, nunca será perfeito. O mundo real sempre é mais complexo do que as palavras e inevitavelmente surgirão situações em que duas ou mais regras se contradizem. Para isso existe o sistema judiciário ou estruturas que arbitram ou julgam como o fato deve ser interpretado. Vale para a justiça comum, vale para o esporte. E um exemplo deste fim de semana vem dos Estados Unidos, no polêmico choque entre Chase Utley e Rubén Tejada que acabou decidindo a vitória do Los Angeles Dodgers sobre o New York Mets por 5 a 2 de virada.

A partida estava na sétima entrada e os nova-iorquinos venciam por 2 a 1, com um eliminado. Kike Hernández estava na terceira base e Chase Utley, na primeira. Howie Kendrick rebateu em linha para a segunda base. Daniel Murphy fez a defesa e lançou para o shortstop Rubén Tejada. A possibilidade de queimada dupla, que salvaria os Mets naquele momento, era palpável. Utley se atirou em Tejada para atrapalhar sua ação.

Foi uma sequência toda negativa para os nova-iorquinos. Hernández anotou a corrida do empate, Kendrick chegou sem problemas à primeira base, Tejada fraturou a fíbula no choque e Utley (após revisão de replay que reverteu a decisão inicial) ainda foi considerado salvo porque o defensor dos Mets não tocou a base, mesmo que ele próprio também não o tenha feito. O time visitante perdeu a concentração e acabou cedendo mais três corridas.

Foi uma decisão trágica da arbitragem. Oficialmente, o que ocorreu foi o seguinte:

1) Utley se projeta de forma dura, mas tecnicamente legal como modo de dificultar a ação do defensor;

2) Como Tejada faz a defesa de costas para a primeira base, foi interpretado que ele quis apenas eliminar Utley, sem ter pretensão de queimada dupla;

3) Utley não tocou a base, mas Tejada tampouco pisou na base ou tocou a luva no jogador dos Dodgers. Pela regra, se nenhum dos dois jogadores toca a base, o corredor é considerado a salvo. Além disso, Utley desistiu de tocar na base quando o árbitro marcou sua eliminação, não por incapacidade ou desistência. Foi o que a equipe que faz a revisão das jogadas pelo replay considerou ao orientar os árbitros de campo.

MAIS POLÊMICA: Os árbitros conseguiram errar e acertar ao mesmo tempo em lance decisivo. Depende do critério

Esse caminho é possível pelas regras, mas ele é todo torto e, em última instância, bastante equivocado. Sobretudo por ignorar vários elementos dentro da regra que entrariam em choque com a interpretação adotada.

1) A forma como Utley se projetou deveria ser considerada ilegal. Ele se atira tarde demais e passa por cima da base, o que descaracteriza uma tentativa legítima de tocar a base. Ele apenas comete uma interferência, “falta” que resultaria em sua eliminação e na do corredor que se dirigia à primeira base. Ou seja, a entrada terminaria e nem a corrida de Hernández seria anotada.

Nesse ponto é possível dar o benefício da dúvida aos árbitros, pois lances de interferência não podem ser mudados por revisão de replay. Como o árbitro da segunda base (Chris Guccione) não viu inicialmente que Utley passou sobre a base (um equívoco aceitável, não foi tão claro no momento em que ocorreu), o carrinho foi considerado legal, uma definição que não poderia ser alterada.

2) O principal erro, e a raiz dos problemas. Veja novamente o vídeo acima. Claramente Tejada tinha pretensão de queimada dupla. Ele pisa de costas para a primeira base porque o lançamento de Murphy o forçou a virar o corpo para apanhar a bola, mas ele começa a girar e preparar o braço direito para o lançamento quando é atropelado. Esse detalhe faz uma diferença enorme dentro do contexto.

Ao marcar uma escolha defensiva na segunda base, o árbitro de campo estabeleceu que a jogada era revisável pelo replay. Se fosse tentativa de queimada dupla, entraria em vigor a regra de “neighborhood play” (jogada de vizinhança, que basicamente é uma flexibilização da regra de eliminação em caso de queimada dupla, dando ao defensor o direito de apenas se aproximar da segunda base antes de lançar para a primeira, reduzindo o risco de lesão por atropelamento por parte do corredor).

A neighborhood play não é mencionada diretamente no regulamento do jogo e foi adotada de modo informal pela arbitragem por décadas, mas ela se tornou indiretamente oficial em 2014, quando a MLB estabeleceu o que poderia ou não ser mudado por revisão de replay. Um dos itens definidos como revisável é “eliminação forçada (EXCETO o defensor tocar a segunda base em uma queimada dupla)”. Ao definir que eliminações na segunda base em tentativa de queimadas duplas não podiam ser mudadas, a liga oficializou que os árbitros teriam a liberdade para definir como bem entendessem essas jogadas. E foi o que ocorreu, tanto que houve dezenas de casos nos dois últimos anos em que técnicos não puderam pedir revisão de jogadas nessas características. Ontem foi uma incompreensível exceção.

3) De fato, Tejada não fez a eliminação de Utley, mas como ele faria isso se estava claramente lesionado (a fratura foi identificada minutos depois, nos vestiários) e se não precisava porque o árbitro já havia marcado eliminação? A flexibilidade empregada pelos árbitros para absolver Utley pelo não toque da base não foi adotada para o lesionado Tejada.

O resultado final foi desastre completo, com uma marcação criticada por grande parte dos analistas e pelo público. Joe Torre, ex-técnico das duas equipes e atual vice-presidente da MLB, deu entrevista após a partida e deixou nas entrelinhas que os árbitros erraram. Afirmou que o carrinho de Utley foi “um pouco atrasado” (o que poderia definir como fora da linha legal de ocupação da base) e que o jogador do Los Angeles “estava tentando quebrar uma queimada dupla” (o que caracteriza a jogada como queimada dupla).

De qualquer maneira, não dá para afirmar que os Dodgers não teriam condições de reagir. A interpretação mais recorrente da jogada é a que daria a Hernández a corrida do empate e o duelo seguiria. Mas certamente os ânimos dos Mets estarão exaltados, sobretudo para o jogo desta segunda no Citi Field. Os nova-iorquinos poderão usar o caso como motivação extra para passarem de fase, mas isso também pode ser canalizado de forma errada e servir apenas para tirar a concentração dos jogadores.

A missão dos times é saber digerir da forma mais adequada o que ocorreu. Mas a MLB precisará conversar bem sobre o que ocorreu para evitar novas polêmicas causadas por algo que deveria acabar com elas, o replay.