Os Warriors não estão errados por tentar o recorde de vitórias

É uma das perguntas mais recorrentes a um atleta ou a uma equipe que acaba de conquistar o título máximo: “Agora que já se está no topo, qual a motivação?”. Normalmente, a resposta é algo como “ganhar de novo”. Permanecer no topo parece o único caminho possível para quem já o alcançou, mas há a possibilidade de dar um passo adiante. Muitos ganharam títulos, poucos viraram mito.

Para uma equipe, transformar-se em lenda envolve criar uma dinastia ou estabelecer marcas assombrosas, que demonstrem um nível de domínio fora do comum em cima dos demais. E é isso que o Golden State Warriors vê em seu horizonte quando se depara com a escolha entre começar a se poupar para ter fôlego nos playoffs ou buscar o recorde de vitórias em uma temporada do Chicago Bulls de 1995/96. O racional é priorizar o título, mas os jogadores se dizem determinados a vencer as três partidas que faltam e chegar a 73 vitórias.

Não existe nenhuma regra indicando que o recorde de vitórias e a taça de campeão são excludentes. O próprio Chicago de Michael Jordan estabeleceu a marca de 72 vitórias e levantou o troféu. Mas, diante do claro desgaste físico que os Warriors vêm apresentando na última semana, sobretudo na surpreendente derrota para o Minnesota Timberwolves, fica a sensação de que o elenco precisa de descanso.

Ainda assim, dá para compreender a postura dos jogadores do Golden State. Após o título, o que os motiva? Outro título é um grande motivador, seguir no topo também, mas virar lenda é igualmente atraente, e está a três jogos de distância.

Os Warriors jamais terão uma dinastia como a do Boston Celtics nos anos 60, e dificilmente conseguirão uma como a do Los Angeles Lakers dos anos 80 ou a do Chicago Bulls dos anos 90. Klay Thompson e Draymond Green têm contratos longos, mas Stephen Curry, principal figura do atual campeão da NBA, está ligado ao clube até o final da próxima temporada. Nada o impede de renovar, mas certamente ele receberá um belo aumento. Para manter o trio até o final da década, a franquia terá de economizar no resto do elenco. Além disso, há sempre a possibilidade de algum jogador perder rendimento com a aproximação dos 30 anos de idade.

O recorde de vitórias é o demonstrativo de dominância mais acessível. São três jogos, dois contra o Memphis Grizzlies e um contra o San Antonio Spurs. Três jogos difíceis, mas podem até servir de ensaio para os playoffs. Além disso, a equipe de Oakland já garantiu a primeira posição da conferência e deve enfrentar uma equipe de retrospecto negativo (Utah Jazz ou Houston Rockets) na primeira fase de playoffs. Uma série curta (4 a 0 ou 4 a 1) proporcionaria os dias de descanso que os jogadores querem.

Claro que tudo isso pode ir por terra se, no final das contas, o time não tiver intensidade para um confronto melhor-de-sete contra Spurs ou Oklahoma City Thunder. Talvez fique marcado como um dos melhores times da história a fracassar no mata-mata, junto com o New England Patriots de 2007/08 (só perdeu um jogo, justamente o Super Bowl contra o new York Giants) ou o Seattle Mariners de 2001 (recordista de vitórias da MLB, perdeu para o New York Yankees na final da Liga Americana). Mas é um risco, e certamente o elenco tem confiança suficiente para achar que dá conta das duas tarefas: recorde e troféu.

Por isso, é compreensível os Warriors seguirem na luta pelas 73 vitórias. Ainda que nosso instinto seja de fazer o máximo – nem que isso signifique usar reservas e perder partidas irrelevantes – para conquistar o título.