O que a MLB pretende ao realizar um jogo em Cuba

É uma terça especial para o beisebol. A Major League Baseball volta a realizar uma partida em território cubano, um jogo de pré-temporada entre o Tampa Bay Rays e a seleção da ilha em Havana. Entre os milhares de torcedores estará Barack Obama, primeiro presidente dos EUA a visitar Cuba em 88 anos. É um marco na relação entre os dois países, mas também para o beisebol. Afinal, o que a MLB pretende ao dar passos tão claros em direção a Cuba?

Falei sobre isso no começo do mês, quando o amistoso foi anunciado. Para quem não leu, aí vai o texto.

O que significa a partida que o Tampa Bay Rays fará em Cuba
Jogo de exibição entre Baltimore Orioles e seleção de Cuba, em 1999, foi a primeira e última vez que um time da MLB atuou na ilha (AP)

Jogo de exibição entre Baltimore Orioles e seleção de Cuba, em 1999, foi a primeira e última vez que um time da MLB atuou na ilha (AP)

O Tampa Bay Rays foi o vencedor. Desde que Barack Obama anunciou a retomada de relações entre Estados Unidos e Cuba, várias franquias da Major League Baseball demonstraram interesse em fazer um jogo na ilha. Nesta terça, a liga confirmou que o time da Flórida era o escolhido para enfrentar a seleção cubana, em amistoso marcado para 22 de março no estádio Latinoamericano, em Havana. Será o primeiro jogo de uma equipe da MLB no país desde uma vista do Baltimore Orioles, em 1999.

Obs.: Em 1999, os O’s venceram Cuba por 3 a 2 em Havana (foto acima). A seleção cubana devolveu a visita e venceu por 12 a 6 em Baltimore semanas depois.

Tudo bem, fica claro que o beisebol norte-americano está a fim de pegar uma carona na reabertura do comércio entre os dois países e a presença possível de Obama nas arquibancadas ajudará a dar repercussão mundial ao fato. Mas é evidente que a MLB tem planos muito mais profundos para Cuba em longo prazo.

A economia cubana deve ter um crescimento acentuado com a reaproximação com os Estados Unidos, mas dificilmente será muito relevante para a liga como fonte de renda. Cuba tem, de acordo com a ONU, a 64ª economia do mundo. Entre os países que adoram beisebol na América Latina, é maior que a da República Dominicana, menor que a de Porto Rico e significativamente menor que a da Venezuela. A audiência na Cubavisión e a venda de bonés em Havana pode até ser interessante, mas não são essas ações que justificarão o investimento na ilha.

A MLB quer é se aproximar do talento dos jogadores cubanos. A ilha tem potencial para fornecer mais jogadores até que a República Dominicana, pois tem população maior e com mais acesso a educação e estrutura esportiva. A questão é: como fazer essa busca por jovens promessas?

Porto Rico e México não são bons exemplos. A ilha é um estado associado aos EUA e, por isso, está sujeita às regras de draft de norte-americanos e canadenses. Os mexicanos têm lima estrutura de beisebol mais consolidada e muitos jogadores surgem por meio dela. Assim, Venezuela e República Dominicana têm condições mais semelhantes às de Cuba.

Nesses dois países, as franquias da MLB têm uma rede de olheiros (buscones) e centros de treinamento para categorias de base. Os observadores identificam talentos e os levam para testes. Quem passa é contratado e incorporado à academia, onde são preparados para fazer a transição à América do Norte. No inverno do hemisfério norte, durante o recesso das grandes ligas, eles podem integrar equipes nas ligas latino-americanas.

Os arremessadores cubanos José Fernández e Aroldis Chapman conversam antes de partida (AP Photo/Lynne Sladky)

No entanto, a MLB dá pinta de quem não tentará um modelo tão invasivo com os cubanos, criando suas próprias academias e de alguma forma pautando quem pode ou não participar dos campeonatos nacionais desses países. A maneira como a liga tem tratado a questão de Cuba aparenta uma aproximação mais cordial e cuidadosa, sem soar muito agressivo com a estrutura já existente.

Obs.: Atualmente, não há sistema oficial para um jogador cubano ir à MLB. Ele precisa desertar (fugir de Cuba) e oficializar residência em algum país. A partir daí, as franquias norte-americanas podem contratá-lo como um atleta estrangeiro qualquer.

A Série Nacional (liga cubana) é composta por 16 equipes, cada uma representando uma província do país. Elas funcionam como seleções regionais, absorvendo os principais talentos descobertos nas competições escolares. A quantidade de times prejudica um pouco o nível técnico, pois há muitas vagas disponíveis e jogadores sem tanto talento acabam ganhando espaço. Ainda assim, o maior problema é a dificuldade de oferecer intercâmbio e treinamento de alto nível para tanta gente, ainda mais em um país politicamente isolado que tem dificuldade em importar mão de obra.

A MLB não parece apostar em uma quebra dessa estrutura, sobretudo porque não dá para saber até quando o atual regime seguirá no poder em Cuba. Se o governo de Raúl Castro se mantiver por alguns anos, simplesmente não haverá espaço para negociar a entrada de academias americanas no país (por mais que a ilha se torne mais liberal como parte da reaproximação com Washington). Se a economia se abrir, até haveria a possibilidade teórica, mas poderia soar agressivo para os cubanos e enfrentar resistência.

É mais provável que a MLB se associe ao que já existe em Cuba, firmando parcerias para ajudar no desenvolvimento de jovens nas escolas e criar um modelo de transferência de jogadores da Série Nacional. Para isso, gestos de boa vontade são importantes, o que encaixa com as atitudes que a liga tomou até agora: sobretudo bancar a reforma do estádio Latinoamericano e realizar um amistoso com a presença do presidente norte-americano.

Essas negociações ainda vão levar um tempo, sobretudo porque dependem de como avançarão as conversas entre Washington e Havana (que podem mudar de tom se os republicanos ganharem as eleições presidenciais dos EUA no fim do ano). Mas o caminho leva a uma integração de Cuba com a estrutura do beisebol das grandes ligas. E a visita dos Rays pode ser um marco nesse processo.