O fã de NFL pode se sentir compelido a atacar “Concussion”, mas não há como negar sua importância

Prema Omalu está voltando para casa quando tem a sensação de estar sendo seguida. A esposa do médico que revelou o efeito das concussões nos cérebros de jogadores da NFL fica apreensiva, tensa, intimidada. O carro continua na sua cola e ela se vê obrigada a fazer manobras arrojadas para escapar. Ao final da perseguição, ela sente dores na barriga que carrega um bebê.

A cena está presente no filme “Um Homem entre Gigantes” (“Concussion” em inglês, e vamos nos referir pelo nome original porque é como ele ficou mais conhecido entre o público de esportes americanos), que relata a luta de Bennett Omalu para convencer a comunidade do futebol americano sobre os riscos dos atletas sofrerem de encefalopatia traumática crônica (CTE em inglês) pelos anos de pancadas na cabeça. Fica evidente, neste momento do filme, como a liga não teve pudor em intimidar o médico nigeriano que trabalhava como legista em Pittsburgh. Acontece que… a cena não é real.

O amante mais fervoroso de futebol americano pode se apegar a esse trecho, claramente “dramatizado”, para rotular todo o filme como “exagerado” ou “mal intencionado”. Também pode mencionar outros, como a insinuação que o FBI teria processado o chefe de Omalu por conta das revelações, a impressão que houve uma epidemia de suicídio de jogadores (algumas das mortes apresentadas tiveram intervalo de anos) ou que o nigeriano era odiado por um colega de trabalho fanático pelo Pittsburgh Steelers. Há listas do que é real e falso no filme, como essa, mas fique avisado que há altas doses de spoilers nelas.

Como todo filme que tem início com o aviso “baseado em fatos reais”, alguns fatos apresentados não são reais. Pode-se até discutir o valor editorial desse artifício de roteiro, mas seria muito fácil usar três ou quatro pequenas mentiras para desfazer todo o filme. E o amante de futebol americano não precisa cair nessa tentação. Como também não precisa se sentir atingido pela produção.

De fato, o filme pega firme contra a NFL. Tem estrelas como Will Smith (no papel de Omalu) e Alec Baldwin (como Julian Bailes, ex-médico dos Steelers que colabora com o trabalho no legista), foi vendido como “o filme que a NFL não quer que você veja” e teve marketing agressivo, inclusive comprando espaço de TV durante as transmissões dos playoffs da NFL nos Estados Unidos e do Super Bowl no Brasil. E, principalmente, tem um tom duro quando trata da disputa entre a liga e Omalu.

Dentro dessa proposta, é um filme bom e honesto. A história é conhecida de quem acompanha o caso das concussões no futebol americano. O documentário “A Liga da Negação” (“League of Denial”) trata do mesmo tema de forma muito mais detalhada e crítica à liga, como seria de se esperar de uma produção jornalística em comparação com um filme comercial. Tanto que muitos críticos acharam que “Concussion” foi “leve” com a NFL, alguns até acusando os produtores de deixarem a direção da liga interferir no resultado final para aliviar algumas acusações.

Will Smith mostra seu apoio ao Philadelphia Eagles antes de sua equipe enfrentar o New England Patriots no Super Bowl de 2005

Will Smith mostra seu apoio ao Philadelphia Eagles antes de sua equipe enfrentar o New England Patriots no Super Bowl de 2005

As concussões acontecem, representam um problema grave e a NFL precisa agir para reduzir o risco de elas ocorrerem. A liga já tomou várias providências nos últimos anos – aliás, uma crítica merecida ao filme é a ausência de menção a isso, sobretudo nas considerações finais –, mas ainda é um processo em andamento, da mesma forma como os estudos sobre a CTE. O público do esporte não diminuiu, tanto em torneios profissionais quanto em universitários, mas a quantidade de crianças se apresentando para praticar a modalidade nas escolas dá sinais de queda.

Quem gosta de futebol americano precisa estar consciente disso, até para participar, dentro de suas limitações, do debate para melhorar o esporte que tanto ama. Não é um ataque à modalidade em si, ou algo que deva fazer o torcedor se sentir atingido, como se ele fosse um criminoso por apreciar um esporte que leva os jogadores a uma morte lenta e cruel.

Não, o amante de NFL não é criminoso. Omalu mesmo defende que só luta pela ciência, e quer melhorar a modalidade para que seus atletas não sofram por praticá-la. Will Smith também segue essa linha. Ele defende o conteúdo do filme, mas é um torcedor fanático do Philadelphia Eagles e tem filhos pequenos que jogam futebol americano na escola.

Por isso, não há motivos para encarar “Concussion” como um ataque ao esporte, ainda que a divulgação do filme passe essa impressão. Pior do que as pequenas mentiras da produção é negar as suas verdades e não lutar para que elas tornem o futebol americano mais humano para seus jogadores.


  • senna_4ever

    ta a cara do Denzel Washington

  • http://www.meucerebrodoi.org/ Paulo Torres

    Tem esse docomentário “League of Denial” em português em algum lugar?

    • http://www.trivela.com Ubiratan Leal

      A Sportv passou algumas vezes. Tinha disponível no Now, mas tiraram.

  • wellington

    Gosto muito da NFL e não tenho porque ‘atacar’ o filme só porque ele mostra os malefícios do esporte nos atletas. É uma verdade, embora inconveniente.
    Assisto tranquilo porque não vibro quando um jogador leva uma pancada na cabeça e perde os sentidos, mas sei que a violência está inserida no princípio do jogo já que por vezes é necessário um bom tackle para derrubar o adversário.
    Me incomoda muito mais ver um nocaute no UFC, por exemplo, quando um lutador tem que levar uma pancada na cabeça para cair para em seguida ter sua cabeça socada, sem defesa, contra o chão por umas três vezes até o juiz interromper a luta.
    Até comercial de Formula 1 me parece estranho quando aparecem mais cenas de acidentes do que de ultrapassagens.

  • PARKERsp

    Nunca gostei de futebol americano… sempre achei extremamente agressivo…mas não surpreende já que MMA, por exemplo, é idolatrado por muitos…

  • Rafa

    Beleza de matéria. O maior problema desse lado polêmico do futebol americano de fato é ver gente crucificando o esporte por causa disso – na grande maioria das vezes discursos hipócritas regados a ódio cego, seja em forma de anti-americanismo ou simplesmente fanatismo por outro esporte que também costuma ter várias polêmicas “escondidas por debaixo dos panos”.