Medalha? Contra tudo e contra todos, não precisamos delas

Só vi o basquete do Brasil contra a Argentina a partir do final da primeira prorrogação. O que todo mundo sofreu por mais de uma hora, eu sofri por 15 minutos. Como estou fora de casa nesses dias, tenho visto muito pouco da Olimpíada, então acompanho a repercussão pelo Twitter. A derrota para a Argentina efetivamente eliminou o Brasil, ainda que ela, oficialmente, só tenha vindo dois dias depois. Nada de medalha para nós no basquete, portanto.

Nada de medalha – ou quase nada, no final – na natação, também. Nada de medalha para Robert Scheidt. E o vôlei de quadra se classifica na bacia das almas. Ouro para Thiago Braz, ouro inesperado, e voltamos a fazer contas para ver se superaremos Londres ou se ainda temos chances de atingir a meta do COB de 25 medalhas ou décimo lugar (por total) no quadro geral. Como se isso tivesse qualquer importância. Não tem, mas mesmo assim nos importamos demais.

O basquete no Brasil acabou faz tempo. Depois da geração de Marcel e Oscar, ficamos 200 anos sem nem ao menos participar de uma Olimpíada. O basquete foi substituído pelo vôlei, esporte que ninguém praticava, mas que, por ter um formato bom para a televisão, ou porque começamos a ganhar de todo mundo, foi adotado por nossa TV e pelos patrocinadores. O basquete só não morreu por causa da NBA, porque os brasileiros continuam assistindo à liga dos EUA e porque temos jogadores por lá.

O que parecemos não entender, porém, é que isso é um milagre. Existir Nenê, existir Varejão, Leandrinho, existir uma geração com tantos jogadores talentosos que chegamos a pensar que dava pra ganhar uma medalha é um milagre. O basquete no Brasil não tem base, não é incentivado na escola nem nos parques, nossos ídolos – Nenê – são maltratados por imbecis galvaobuenistas que exigem “comprometimento” como se eles se comprometessem com algo que não os próprios interesses. Mesmo assim temos um time, mesmo assim Nenê larga sua vida confortável, suas férias antes da que pode ser uma de suas últimas temporadas na NBA para defender o Brasil. É um milagre.

Como é um milagre qualquer medalha que o Brasil ganhe. No geral, o que temos são abnegados/as, homens e mulheres talentosos/as que têm que superar todas as dificuldades que qualquer atleta do planeta tem que enfrentar não só sem apoio nenhum como também lutando contra confederações corruptas e incompetentes.

De modo que que o foco em medalhas, em resultados, nessa Olímpiada é equivocado. Porque não teremos esses resultados, e porque se os tivéssemos eles ajudariam a mascarar a desonestidade e incompetência dos Nuzmans.


  • Tiago Teles

    O problema principal são o dirigentes, assim como acontece no futebol e em todos os esportes eles preferem receber alguns centavos a mais da rede Globo por exclusividade, e a não transmissão dos eventos, ao invés de receber um pouco menos de outras emissoras que vão transmitir e da visibilidade ao esporte, esquecem que visibilidade geram outras receitas como patrocínios, acordos comercias, e quanto mais receitas maior pode ser o investimento, esse nbb por exemplo era pra esta na tv aberta, mas o caras vendem a globo ai fica difícil ela colocar na grade.

  • Fabrízio Michelon

    Falaram tanto da vaia ao Temer (merecida e ao meu ver surpreendente) e se esqueceram de vaiar o Nuzman. O Brasil não ganhar medalha passa por ele e pelas federações.

    Dinheiro as olimpíadas e muitas competições destes esportes conseguem gerar de alguma maneira. Ao menos para os atletas não precisarem vender rifa pra viajar.

    Enfim, falta também os canais esportivos existentes hoje em dia investir mais em outros esportes ao invés de passar Bragantino x Luverdense pra priorizar PPV ou 94948483 programas de debate na programação.

    • Fabito Moino

      Pertinente e muito isso sobre os canais de TV.

      • Fabrízio Michelon

        Ninguém quer que troque a Champions League, o Barcelona e o futebol brasileiro por vôlei e basquete. Agora, não dá pra passar jogo ruim pra preencher a grade ao invés de outros esportes.

        A imprensa mal oferece outros esportes. Eles não passam com sequência. Quando aprende as regras, cortam. Pelo que sei, nem handebol passa.

  • Gui.Duarte

    Falta incentivo e oportunidade pra garotada jogar e gostar. Basquete sempre foi meu esporte preferido naquela época o Jordan e tb o Oscar jogavam ainda. Nba passava na tv aberta (band) e era força de gurizada que jogava nas escolas e quadras publicas da minha cidade. Hoje, cerca de 20 anos depois, não vejo mais ninguém jogar. Moro do lado de um colégio e da minha janela vejo as 2 quadras, em uma, a tabela esta depredada e nunca consertaram na outra tem tabela mas ninguém joga é so futebol. Na cidade em que moro hoje, não tinha quadra de basquete publica, isso mesmo! A 10 anos atrás quando me mudei pra cá eu procurei e nao achei uma mísera única quadra de basquete pra brincar. Mas o desejo da molecada de jogar ainda existe o que falta é incentivo. A cerca de uns 6 meses atrás uma empresa privada construiu uma quadra poliesportiva publica por aqui, e pasmem, vive lotada todos os dias da semana o pessoal só joga basquete ali, mesmo pq pra futebol deve ter uma 50 quadras espalhadas pela cidade.

    • alvinho

      Cultura local, filhão.

      Na minha escola (pública, rede estadual) sempre teve quadra e bola de basquete, e a molecada só queria jogar futebol, o grupo do basquete às vezes era enxotado da quadra porque os boleiros começavam a “encebar”.

      Imagina um americano choramingando “mimimi why soccer doesn’t has incentives mimimi”

      • Gui.Duarte

        Cultura local uma ova. Acabei da falar que aqui a quadra fica lotada direto de basqueteiros. Não ter quadra pra jogar é cultura local? Claro concorrência com outros esportes sempre vai existir, era assim na minha época com certeza é assim hoje. Naquela quadra ali não rola futebol pq tem inúmeras outras espalhadas por aqui, mas de basquete só tem aquela mesmo. Pra mim isso é falta de incentivo sim.

  • Virgil Luisenbarn

    Esses jogadores BR tão SEMPRE se lesionando à beira da Olimpiada ou evento importante.
    Nem me incomodo com o basquete nosso, por que estamos acostumados a nunca nos classificarmos pra competição, salvo quando Sede.

  • alvinho

    Papinho manjado de sempre

    “mimimi naum tem inxentivo, mimimi naum tem apoiu, mimimi…”

    Brasil, comparado às nações às quais somos comparáveis, em termos de população, desenvolvimento econômico, social e humano (quais sejam, México, Turquia e Irã), vai MUITO BEM nas olimpíadas.

    Não dá pra comparar o Brasil com os EUA, por motivos óbvios. Não dá pra comparar com a China, que tem uma população 6 x maior e sempre teve esporte olímpico como arma de propaganda do regime. Não dá pra comparar com países ocidentais pelnamente desenvolvidos, com pib per capita 4 x o nosso.

    Dá pra comparar com os citados acima. Olhem o México no quadro de medalhas, compare com o Brasil. Olhem a Turquia. Irã só disputa no número d eouros, e só tem 2 esportes (levantamento de peso e wrestling).

    Nesse ciclo olímpico teve investimento pra cacete, temos VÁRIOS atletas de PONTA, extremamente competitivos.

    Então, quando um atleta TOP brasileiro faz vergonheira, tem que cair de pau mesmo. Porque, pelo menos aquele cara que tá ali, teve incentivos e apoio SIM.

    Parem com coitadismos sem sentido, acordem do papinho manjado.

    • felipe

      Comentário lúcido. E os atletas brasileiro estão longe de estarem abandonados. Handebol e Volei possuem forte apoio do governo. 70% dos atletas desta delegação recebiam bolsa atleta e 90% recebiam algum apoio estatal. Há também o exercito que gasta 42 milhões com atletas.

      Por fim o segredo dos EUA não é o governo, e sim a iniciativa privada. A base para formação de quase todos os esportes são as universidades.

    • João

      É o que eu sempre penso. Obrigado por ter escrito.

      Como alguém no Trivela disse, o Brasil ainda não aprendeu a ser o que apenas é.

      Os EUA, a Europa e a China são potências militares, científicas, industriais e além disso, esportiva. Vão chorar?

      E o mais importante, eu gostaria mais de assistir ciclismo de pista e hóquei sobre grama (pra pegar dois exemplos que nossos vizinhos sulamericanos fazem melhor que a gente) com equipes representando bem o Brasil (chegando a um mata mata ou final, como na ginástica por equipes ou no polo aquatico, que seja) do que ganhar 20 ouros na vela e no judô em 2020.

  • iglgama

    Mimimi nao tem incentivo é coisa de quem nao pesquisou 10 minutos sobre o assunto…

    Nesse ciclo olimpico foi investido no esporte olimpico br mais de 1bilhao por ano.

    Não ganhar medalha é normal, afinal é do jogo existir outra pessoa melhor que voce-agora usar essa muleta do investimento não dá mais depois da atuaçao do governo nos ultimos tempos, aumentando brutalmente a participaçao estatal no esporte

    • Sequencia

      Esse discurso batido de ”incentivo” virou um clichê absurdo, apesar de ser verdadeiro em algumas modalidades, em outras essa afirmação é totalmente falsa. Alguns atletas fracassaram por outras razões, mas deram ”sorte” que a grande massa da população vem com essas falas prontas e não procuram saber a verdade.

  • Bruno

    https://www.youtube.com/watch?v=NyiYbQDPE1o

    Somos nessa olimpíada igual ao Mutley, do desenho do Dick Vigarista: Medalha, Medalha, Medalha!

  • Fábio Peres

    Gente, temos que ter uma meta, possível e fácil de se entender. Chegar ao top 10 deveria ser nosso objetivo, seja nesta Olimpíada ou nas demais – garantindo uma carreira para os atletas e infraestrutura para descobrir talentos, passando pelas Confederações e clubes (ou núcleos de desenvolvimento).

    É um sonho? Talvez. Mas não custa sonhar.

  • Rodrigo SMC

    Existem vários estudos de como transformar um país numa potência olímpica. Normalmente apostando nos esportes que oferecem o maior número de medalhas possível, como Natação e Atletismo.

    O maior exemplo mesmo pode ser da Grã-Bretanha que terminou em 36º no quadro de medalhas de Atlanta com 1 medalha de ouro, até se transformar no 3º lugar em 2012 e agora está em 2º lugar.

    Um outro exemplo ? Cazaquistão. Apostou em esportes de muitas medalhas como halterofilismo e boxe e que são considerados mais baratos. Em Londres conquistou 7 medalhas de ouro e ficou ao lado de Japão e Austrália.

    Agora no Brasil, em que o dinheiro do governo é dado as confederações e federações e desse dinheiro não se investe em base, não se investe em ter um centro de qualidade pra treinos ou se investe só no atleta que já está pronto e olhe lá. O dinheiro do governo fica escoado e o dinheiro privado não chega pois ninguém sabe se isso vai dar retorno ou não.

  • Fabricio

    Os caras jogam, mas com medo de se machucarem e perderem a grana da NBA…

  • Vladson Ajala

    Reflexão interessante do Ubiratan Leal. Mesmo assim, acho que muitos que comentaram não entenderam que o esporte em si é mais importante do que a conquista das medalhas, que é uma consequência. É bonito ver a Rafaela Silva sair da favela e ser ouro olímpico, mas mesmo que ela não vencesse, a maior vitória foi dar a oportunidade dela ser atleta. É aí que entra a questão de incentivo. Não é só dinheiro, não é apenas dar apoio para atletas de alto rendimento, como faz o importante programa das Forças Armadas. Precisa ter formação de atletas, é onde mais pecamos. Muitas pessoas com potencial para algum esporte talvez nem descubram isso por não terem sido incentivados a praticar quando jovens. Ao meu ver, é isto que faz dos Estados Unidos uma potência, pois o esporte para eles faz parte da educação.