March Madness para os EUA porque representa o que há de melhor em um mata-mata

Defensores da volta do mata-mata ao futebol brasileiro adoram usar os esportes americanos como exemplo de sucesso do sistema. É só ver como a discussão ganha força quando chegam os playoffs da NFL ou da NBA, as duas ligas de mais repercussão no Brasil. Ainda que seja bastante discutível a comparação das competições dos EUA com as daqui, usar NFL e NBA como exemplos de emoção máxima trazida pelo formato de disputa é só a porta de entrada. Porque o torneio que realmente explora ao máximo o potencial das emoções dos jogos eliminatórios é o basquete universitário.

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O March Madness não recebeu esse nome gratuitamente. O torneio da NCAA é realmente uma “loucura”. Muito mais que nas ligas profissionais. Por exemplo, NBA, MLB e NHL têm decisão em melhor de sete. Com isso, a chance de zebra se reduz. Surpresas ainda acontecem, mas um time fortíssimo não é eliminado por causa de uma noite ruim. São necessárias quatro derrotas para a decisão da série. Normalmente, os duelos mais espetaculares envolvem equipe já equilibradas.

Na NFL, a decisão é em jogo único. No entanto, o time supostamente mais forte (que teve melhor campanha na temporada regular) tem vantagem do mando de campo. Além disso, no futebol americano é menos recorrente uma equipe claramente mais fraca conseguir uma vitória de uma muito mais forte. Mesmo no mata-mata há duelos em que há um favoritismo destacado.

Indo para a Europa, a Champions League? Bem, dá para dizer que os mata-mata anda bastante previsível no futebol europeu. Em três dos últimos quatro anos, as semifinais tiveram Barcelona, Bayern de Munique e Real Madrid. E, no ano que fugiu à regra, foram dois desse trio. Ainda que algumas surpresas tenham ocorrido, há um padrão claro em relação a esses três supertimes.

Na NCAA, o cenário é de caos. Como os times estiveram em conferências diferentes, com calendários muito diversos, o ranqueamento é feito por observação e análise, não por uma disputa única que envolva todas as universidades. Por melhor que seja o resultado final, o chaveamento pode ter pequenas distorções e um cabeça de chave nem sempre merece um favoritismo tão grande quanto o indicado em sua posição. Em um torneio de jogo único em campo neutro, o duelo fica ainda mais nivelado.

Outro elemento importante é o fato de se tratar de um torneio universitário. Os jogadores são inexperientes e são mais suscetíveis às oscilações causadas pela emoção. Algumas equipes crescem ou encolhem, e nem há um longo histórico em cima de cada um para se identificar essa tendência e incluí-la nas previsões.

Isso tudo cria uma competição em que realmente parece que qualquer resultado é possível. Ainda que jamais um cabeça de chave número 1 tenha perdido para o 16º, é comum ver universidades de ranking baixo chegarem a fases avançadas do torneio. Preencher bolões é uma mania americana, quase obrigação moral. É raríssimo algum entre as dezenas de milhões de palpites se manter ao final da primeira fase. E, na segunda, o que sobrou já cai.

É isso que torna o mata-mata do basquete universitário tão grande nos Estados Unidos. Um torneio que é legal do ponto de vista esportivo, mas que ganhou um tamanho gigantesco porque soube explorar ao máximo o potencial de emoção proporcionado pelo sistema de jogos eliminatórios.


  • Marcos Moraes

    Teremos a liga do Extratime esse ano também?