Mais que uma grande final, vimos um choque entre dois capítulos da história

Quando LeBron James saltou para tentar impedir uma cesta de Andre Iguodala, ele não estava apenas decidindo um jogo de basquete. Não estava apenas decidindo um título. Aquela jogada poderia deixar o Golden State Warriors com dois pontos de vantagem a pouco mais de um minuto do final, mas, com o toco, se transformou na posse de bola que deu a vitória e o campeonato ao Cleveland Cavaliers. Naquele lance uma narrativa estava em jogo, um episódio para ser contado por décadas. Um legado.

A decisão desta temporada da NBA teve um elemento raro nos esportes, e por isso ela foi tão especial. A história é escrita a cada momento, mas muitas vezes só descobrimos o que seria marcante depois de acontecer, quando se olha de longe, com uma visão panorâmica. Um cuidado dispensável para o encontro entre Warriors e Cavs. O time do Golden State se ensaia como um dos marcos de sua época, com um título já garantido, um recorde de vitórias em uma temporada regular e um estilo de jogo que pode influenciar o resto da liga. O Cleveland é um ótimo time, mas seu pé na história estava garantido pela presença de LeBron, possivelmente um dos maiores jogadores de todos os tempos.

São dois dos potenciais símbolos do basquete da década de 2010 se encontrando. Duas forças da natureza. Ainda que seja impossível afirmar isso, ficava aquela sensação de que apenas o talento de LeBron liderando a série em pontos, assistências, tocos, roubos e rebotes seria capaz de parar os Warriors. Apenas o jogo coletivo, rápido e envolvente dos Warriors seria capaz de impedir LeBron de levar o troféu para o estado de Ohio.

Decisões que se desenham dessa forma são raras. Na NBA, os três duelos entre Los Angeles Lakers e New York Knicks entre 1970 e 73 tiveram essa cara. Os californianos tinham o talento incontestável de Wilt Chamberlain e Jerry West (ambos em final de carreira), mas os nova-iorquinos contavam com um jogo coletivo marcante (ainda que tivessem ótimos jogadores, como Willis Reed, Jerry Lucas, Phil Jackson e Pat Riley). Os Knicks venceram duas das decisões.

Outro caso veio um ano depois, com Milwaukee Bucks de Kareem Abdul-Jabbar (já tricampeão do troféu de MVP) e Oscar Robertson em sua última temporada contra o Boston Celtics. Os bostonianos não tinham mais o time histórico da década de 1960, mas construíram uma base sólida com John Havlicek, Paul Silas, Jo Jo White e Dave Cowens. Os Celtics ficaram com o título.

Em outros esportes isso também não é tão comum. No beisebol e no futebol americano, as ações são muito diluídas entre os jogadores e não é fácil colocar um nome capaz de conduzir quase sozinho seu time à vitória. Na NHL, essa característica se viu nos duelos entre o Detroit Red Wings de Gordie Howe e o Montréal Canadiens em 1954, 55 e 56. O Detroit levou os dois primeiros, mas os canadenses ficaram com a Stanley Cup em 1956, dando início a uma série de cinco títulos seguidos. As finais de 1983 e 84, entre o New York Islanders e o Edmonton Oilers de Wayne Gretzky também foram nessa linha.

Ken Mornow (esquerda) e Wayne Gretzky em duelo entre Islanders e Oilers em 1983 (AP Photo/Richard Drew)

Ken Mornow (esquerda) e Wayne Gretzky em duelo entre Islanders e Oilers em 1983 (AP Photo/Richard Drew)

No futebol, os melhores exemplos são os encontros épicos entre o Napoli de Maradona e o Milan treinado por Arrigo Sacchi no final da década de 1980. A final da Copa do Mundo de 1990, entre a Argentina de Maradona e a Alemanha Ocidental de Lothar Matthäus foi outro caso. Pelé talvez entrasse nessa lista se ele estivesse no grupo do Brasil na Copa de 1974 e enfrentasse o jogo coletivo da Holanda de Johann Cruyff.

Todos esses duelos viraram marco de suas épocas em suas modalidades, pois eles colocam dois conceitos supostamente contraditórios para esportes coletivos: o time de ótimos jogadores e coletivo fantástico contra o time de um ou dois jogadores fantásticos e um coletivo apenas funcional. Não existe jeito melhor ou pior, existe apenas a história sendo feita nos detalhes. A velocidade e os arremessos incessantes poderiam dar o título aos Warriors, mas a definição ficou em uma jogada individual, o salto fantástico e o toco de LeBron James que serviu de preliminar para a cesta de três pontos de Kyrie Irving, o ótimo coadjuvante que todo craque sagrado precisa.

Não importa o que será de LeBron nos próximos anos, se ele ficará ou não nos Cavaliers, se ele tentará ou não a glória em um grande mercado como Los Angeles ou Nova York. Não importa também se os Warriors conquistarão mais títulos, ainda que a base ainda tenha alguns anos em Oakland e é bem capaz de esse time seguir vencedor. Daqui algumas décadas, olharemos para as finais de 2015 e 2016 da NBA achando que só um era capaz de parar o outro.


  • disqus_lPwDAjmcVF

    Achei meio forçada essa comparação, uma vez que essa temporada da NBA esteve longe de ter somente essas duas equipes postulantes ao títulos e que elas exclusivamente teriam que “uma parar a outra”. OKC esteve muito, mas muito perto de eliminar o Warriors na final do Oeste, e o próprio Blazers passou mais tempo na liderança da série que o Warriors, lembrando que eles avançaram muito por conta da implosão do LAC frente às contusões. Não gosto muito dessas comparações, assim como aquela LeBron/CR7 e Curry/Messi por que em geral elas reduzem personagens, times ou ta mesmo momentos históricos à análises simplistas que ignoram detalhes, seja táticos, técnicos ou pessoais, muito importante para o desenrolar de uma história. Como querer colocar Lebron como um personagem individualista com 11 assistências, ou até mesmo considerando o problema crônico que o time tem com rebotes, desde o Memphis ano passado principalmente contra o OKC, e que o Cavs deitou e rolou com Tristan Thompson, principalmente após a contusão do Mozgov. Ou, e principalmente, o Irving que liderou o time durante maior parte dos playoffs e até em parte das finais enquanto o Lebron não acertava seus arremessos de longa distância. Essas comparações entre esportes e até épocas diferentas são muito boas e belas se considerarmos a literatura e até é importante para tentar simpatizar novos espectadores, mas o simplismo delas flerta um pouco com a irrealidade

    • http://www.trivela.com Ubiratan Leal

      Caro, acho que você leu o texto procurando um viés diferente. Não é uma análise sobre o jogo, mas projeção de uma perspectiva histórica que teremos sobre ele. Claro que o Cleveland não era só o LeBron, do mesmo jeito que o Napoli do Maradona tinha Careca e Carnevale (titulares da seleção do Brasil e da Itália) como dupla de ataque. Claro que o Thunder quase eliminou os Warriors, do mesmo jeito que, durante a hegemonia Milan x Napoli, a Internazionale do Matthäus conquistou um título.

      Apesar do Careca, do Matthäus, da Inter, a história que marcou a época foram os duelos do maior jogador dessa era contra o maior time coletivo dessa mesma era. E é assim que eu acho que esses duelo Cavaliers x Warriors será visto. Em nenhum momento isso desmerece os demais times como Spurs ou Thunder (eu mesmo achei que o Thunder só não foi à final – e teria boas chances de ganhar dos Cavs depois – porque deixou o Golden State renascer em uma série em que estava quase morto), tampouco desmerece jogadores como o Thompson e o Irving.

      E onde você viu que eu coloquei o LeBron como individualista? Falei apenas que ele era “o” cara do time, o responsável por comandar a equipe. Se for para definir um grande personagem da decisão, é ele. Ainda que o Irving tenha sido fundamental ao fazer a cesta do título em um momento em que o LeBron tinha errado alguns lances seguidos.