Ida de LeBron a Miami ajudou os Cavaliers a construir o time campeão

Parecia o fim do Cleveland Cavaliers. Quando chamou a ESPN americana e fez um programa apenas para anunciar que defenderia o Miami Heat, LeBron James estava virtualmente pulverizando qualquer possibilidade de os Cavs, seu time anterior, ser minimamente relevante por uma ou duas gerações. Claro que não funciona assim, mas a reação dos torcedores de Ohio foi nesse nível, até porque já estão acostumados a ver as franquias profissionais do estado fracassarem. Mal sabiam que aquele momento talvez tenha ajudado muito a equipe a estar comemorando um título inédito da NBA nesta semana.

LeBron é daqueles jogadores que são capazes de levar um time quase sozinho nas costas. Ele não será campeão sozinho, mas, com ele no elenco, uma equipe mediana consegue vitórias suficientes para se classificar as playoffs e talvez até passar por uma ou duas fases no mata-mata. Na hora H, quando as outras potências da NBA aparecem pelo caminho, fica mais difícil resistir. Mas ele eleva o nível de competitividade da camisa que estiver defendendo.

Isso foi importante para dar esperança aos Cavs, que chegou aos playoffs por cinco anos seguidos a partir da terceira temporada de LeBron. E sua saída, que deu início a uma depressão que se traduziu em falta de confiança da torcida e dificuldade em convencer bons jogadores a defenderem o Cleveland, derrubou a franquia. Foram três temporada seguidas com menos de 25 vitórias e uma com 33. O time que era integrante fixo dos playoffs se tornou saco de pancadas.

Talvez fosse o que a franquia precisasse. LeBron elevava o nível da equipe, mas o resto do elenco não era capaz de dar suporte a ele no momento de buscar o título. Com as temporadas seguidas no fundo da tabela, os Cavaliers conseguiram boas escolhas no draft. Logo no primeiro recrutamento pós-LeBron, em 2011, uma negociação com o Los Angeles Clippers e uma campanha horrível colocaram o Cleveland com a primeira e a quarta escolha. Foram selecionados Kyrie Irving e Tristan Thompson, os dois jogadores mais importantes nas finais contra o Golden State Warriors depois do astro da equipe.

O draft continuou ajudando. Dion Waiters, quarta seleção de 2012, não teve tanto sucesso no Cleveland, mas foi usado nas negociações que levaram JR Smith e Iman Shumpert para os Cavaliers. A franquia ainda teve a primeira escolha em 2013 e 14, pegando Anthony Bennett e Andrew Wiggins, utilizados na troca que envolveu Kevin Love.

No geral, dá para discutível se todas as decisões da diretoria dos Cavs foram acertadas ou se era possível aproveitar melhor essa onda de boas posições no recrutamento, mas é inegável que os quatro anos de ruindade ajudaram a aumentar a quantidade de bons jogadores no elenco. Ainda mais quando se sabia que LeBron ia voltar (o que foi acertado antes da negociação de Love).

Não foram só os Cavs que melhoraram. A ida para o Miami foi positiva para o próprio LeBron. Ele encontrou uma equipe mais forte, com outros astros ao lado, e ganhou experiência de finais. Ganhou duas e perdeu duas, aprendeu a tirar o rótulo de “amarelão” que alguns críticos lhe davam e estava mais maduro para conduzir a equipe de sua cidade ao título. Ele não se tornou o jogador perfeito, mas tinha mais força mental para assumir a responsabilidade. Tanto que o Cleveland deu trabalho aos Warriors na final de 2015, mesmo com Love e Irving machucados, e venceu neste ano.

Assim, o que poderia ser o enterro dos Cavaliers por uma década pode ter sido a salvação. Ninguém podia adivinhar isso em 2010, mas dá para entender esse processo melhor hoje.