Jackie Robinson, homem que quebrou a barreira racial na MLB (Crédito: AP Photo)

Jackie Robinson, homem que quebrou a barreira racial na MLB (Crédito: AP Photo)

“Não estou preocupado se você gosta ou não gosta de mim. Tudo que peço é que me respeite como um ser humano.” Sim, essa é mais uma coluna sobre Jackie Robinson. Por quê? Porque ele merece. E porque precisamos refletir algumas coisas que vão além do beisebol. A MLB dedica todo 15 de abril (é o “Jackie Robinson Day”, em que todos os jogadores usam o número que ele usava, o 42) ao primeiro negro a vestir uma camisa de um time profissional que não participasse da chamada “Negro League”. Robinson quebrou barreiras pelo que fez, pela luta que teve e, acima de tudo, pela coragem.

Talvez não se valorize o dia como ele deva. Talvez seja comum pensar que é só mais uma homenagem a mais um jogador. Deve ser essa era das redes sociais, que tornam tudo mais fácil e mais momentâneo. Mas não é bem assim. Ian Desmond, do Washington Nationals, nos ajuda a ter uma ideia melhor da importância da data: “É uma honra usar o número dele, mesmo que eu não mereça. Quando eu o coloco, significa algo para mim. Não é simplesmente usar porque colocaram no meu armário no vestiário. Quando eu uso, tem um significado muito grande para mim.”

Robinson, negro, filho de agricultores e pobre, tinha tudo para dar errado na vida. Pelo simples fato de ter nascido de uma cor “diferente” (da cor dos que estavam/estão no poder, pelo menos). Conseguiu cursar uma boa faculdade e jogou todos os esportes que você imaginar. Poderia ser o suficiente para ser considerado um vencedor na vida. Mas ele foi além.

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Depois de servir no exército e jogar nas ligas para os negros, Robinson foi chamado para a MLB e aí começou sua fase iconoclasta. Sofreu preconceito dentro do próprio time e, ao redor da liga, nem se fala. Em atletas como Stan Musial encontrou defensores e pessoas de mentalidade justa e digna. Revolucionou a liga. Quanto a números, prêmios e jogos, foi estreante do ano, melhor jogador da Liga Nacional dois anos depois, ajudou a levar o Brooklyn Dodgers a seu primeiro título.

Mas, no fim das contas, o que aprendemos com Jackie? É ótimo homenagear uma figura importantíssima para qualquer esporte americano. Mas que tal por em prática um pouco do que ele fez enquanto vivo?

No mesmo dia que se comemorava o Jackie Robinson Day, a cidade de Boston sofria um atentado bizarro. Alguém querendo chamar atenção? Um novo grupo querendo crescer na bizarra “indústria do terror”? Ainda não se sabe. Mas nós vimos que a explosão de uma bomba levou a vida de uma criança de 8 anos. Oito anos.

Mas então me aparece o New York Yankees homenageando o maior rival: o Boston Red Sox. O time toca Sweet Caroline, música mais que representativa para os torcedores meias-vermelhas no Yankee Stadium (clique aqui e veja). Atitude nobre. Atitude de apoio e de se encher os olhos de orgulho. Mas nem todo mundo achou isso. Cansei de perceber torcedores Yankees achando absurdo e que isso nunca deveria acontecer (e tenho certeza que não é exclusividade de time aqui. Qualquer outra rivalidade teria os mesmos argumentos babacas por parte de alguns torcedores).

Como assim? Estamos comemorando o Jackie Robinson Day na mesma semana que o pessoal não consegue tolerar uma música em homenagem ao maior rival? Em que mundo estamos?

Nosso país passa por um momento em que qualquer notícia a respeito da diversidade vira tema de briga em redes sociais, cria novas inimizades e mais ódio. O respeito, que Jackie tanto pedia, parece não existir mais. Talvez estejamos fazendo muito pouco por ele. Ainda não vi nenhum atleta do beisebol assumir ser homossexual. Certamente são vários. Mas eles não têm coragem, claro o mundo respira intolerância e ódio.

Isso tudo mais de meio século depois de Jackie ter nos presenteado com sua capacidade incrível de lutar. E ele está, certamente, vendo tudo de algum lugar. E torcendo para que você mude. Porque ele mudou muita coisa, mas não pôde fazer tudo sozinho.