Esqueça a World Series. O maior título de Paulo Orlando está em SP

Como é a sensação de conquistar o título? Já caiu a ficha? Dá aquela satisfação depois de todo o esforço da temporada? É a recompensa por uma vida de sacrifícios? “Sim, claro, é maravilhoso. É o resultado de um trabalho muito duro.” Mas… quando alguém fala em “conquista” e “vida de sacrifícios”, o que passa pela sua cabeça? Essa é a resposta difícil. Essas são as grandes histórias por trás de cada atleta, vencedor ou derrotado. E esse é o verdadeiro título de Paulo Orlando, defensor externo do Kansas City Royals e, desde o último domingo, primeiro brasileiro campeão da maior liga de beisebol do mundo.

O paulistano que completou 30 anos no dia em que conquistou a World Series é um sujeito fácil de conversar. Sempre aberto, nunca parece se achar superior a pessoa com quem está falando. Provavelmente porque o profissional da Major League Baseball nunca esqueceu que era um garoto do bairro de Santo Amaro que, como milhões de crianças, sonhava em se tornar jogador de futebol. O campeão que respondeu um pedido de entrevista por WhatsApp com um “É só ligar, agora mesmo se puder” é o mesmo que, em 2011, me deu entrevista para uma reportagem da Revista ESPN na praça de alimentação do Shopping Center Norte, em São Paulo, quando ainda era um dos candidatos mais fortes a primeiro jogador brasileiro da história da MLB (essa marca ficou com o catcher Yan Gomes, que estreou pelo Toronto Blue Jays em 2012).

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Defender o Corinthians era seu sonho, mas nunca teve oportunidade de fazer um teste. A chance veio com o beisebol, por acidente. Quando tinha 11 anos, sua mãe trabalhava como faxineira no consultório do médico Hideo Ueno, filho de japoneses que treinava o time do clube Nikkey de Santo Amaro nas horas vagas. Um dia, ele precisou de um jogador para completar o time infantil e perguntou para a Dona Tânia se seu filho topava participar. Ele aceitou, achando que seria algo temporário, só para preencher a vaga no time. “O pessoal me recebeu bem e fui ficando. Depois de um tempo, até me ajudavam a bancar as viagens para jogar no interior”, conta.

O time foi desmontado depois de um tempo, mas o problema maior estava em casa. Seus pais se separaram e Paulo passou a morar com o Seu Antônio, o pai, e a Tia Dilza. Sua mãe casou novamente e eles perderam contato. “Não falo com ela há uns dez anos. Acho que nem sabe que virei profissional, que jogo nos Estados Unidos”, afirmou em 2011 para a Revista ESPN. Pouco depois, seu pai arranjou um emprego em Embu-Guaçu (cidade na Grande São Paulo) e também se mudou. Paulo ficou morando com a tia, maior vínculo que se manteve com sua família. Depois que o pai se aposentou, foi morar no interior e o contato se tornou ainda mais raro. A tia que atualizava Paulo do que acontecia. “Ele sabe que estou no beisebol e tudo, mas não sei se ele tem dimensão do que isso significa”, comentou em 2011.

Nesse momento conturbado, a tia e o esporte foram fundamentais. “Não me faltou nada, consegui completar o segundo grau, mas foi a paixão pelo esporte que me tirou da rua”, admite. “Foi sempre o que eu gostei de fazer e procuraria algum em que pudesse dar certo.” E o que poderia dar certo, na época, não era rebater bolinhas com um bastão, era correr.

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Se não conseguiu o sonhado teste no futebol do Corinthians, teve sua chance no atletismo do Pinheiros. Foi aprovado e passou a disputar os 200 e 400 metros rasos. “Eu fazia 21s nos 200 metros e 46s33 nos 400. Para um juvenil, era promissor.” De fato, são bons índices, que o colocavam em condição de defender o Brasil em competições internacionais. Para se ter uma ideia, o recorde brasileiro juvenil nos 200 metros é de 20s54, de Bruno Nascimento Pacheco. Nos 400 metros, é de 45s71, de Anderson Freitas Henriques.

Ainda assim, ele permaneceu ligado ao beisebol, como uma espécie de plano B se o atletismo não fosse para frente. Em 2005, ele soube que havia testes para levar brasileiros ao beisebol norte-americano e resolveu tentar. Foi reprovado no primeiro, mas passou no segundo e foi convidado a ir aos Estados Unidos, onde seria observado pelo Chicago White Sox. Conseguiu um contrato para jogar uma temporada na filial do time na República Dominicana. O início foi difícil, longe da família e da namorada Fabrícia (saltadora do Pinheiros). Na temporada seguinte, já na América do Norte, estranhou a vida na pequena Kannapolis (Carolina do Norte, onde ficou seu primeiro time de ligas menores) e, estressado, pensou em voltar ao Brasil. Ainda havia tempo de desistir do beisebol e retomar a carreira no atletismo.

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O momento mais delicado, porém, foi em 2007. O brasileiro quebrou o dedo em uma jogada simples e ficou parado. Não conseguiu recuperar o ritmo de jogo e acabou a temporada com estatísticas fracas. Teve de ficar mais uma temporada sem mudar de categoria. A evolução só acelerou em 2008, quando foi negociado com o Kansas City, reconhecido por trabalhar melhor com suas promessas. Nessa época, também teve a oportunidade de morar em casa de famílias locais, um fator importante para entender melhor a cultura americana.

Família é algo importante, talvez porque tenha vivido em uma que se desfez precocemente. A namorada Fabrícia virou sua esposa, e depois mãe de Maria Eduarda, hoje com seis anos. Elas ainda moram em São Paulo, com a sogra do jogador. Como a carreira já está mais consolidada, Paulo se dá alguns luxos, como levá-las para passar algum tempo em Kansas City ou na Venezuela (onde atua durante as férias da MLB) durante a temporada. Ainda assim, a filha não estava por perto na World Series. “A Maria Eduarda já está indo para a escola, fica mais difícil. E nos playoffs é complicado, não dá para planejar com antecedência onde você vai estar na semana seguinte”, explica.

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É impossível conversar cinco minutos com Paulo sem que ele mencione a mulher e a filha, sempre fazendo questão de destacar como elas foram importantes para ele jamais esquecer de onde saiu e para onde queria ir. “Eram elas que me davam suporte nos momentos importantes. Quando eu estava jogando mal, ligava para casa, desabafava, ouvia a voz da Maria Eduarda. Tudo o que eu faço é para elas.” E a Maria Eduarda já entende o que é um jogo? “Acho que sim. Ela sabe que o pai trabalha nos Estados Unidos, já viu um jogo e acho que entende um pouco que acertar a bolinha é legal.”

Bem, o pai da Maria Eduarda trabalha nos Estados Unidos só uma parte do ano. Na outra, seu ganha pão vem da Venezuela. Paulo tem chegada ao Brasil programada para este domingo (8), mas deve voltar para ficar apenas alguams semanas. Ainda em novembro ele deve se apresentar aos Cardenales de Lara. Será um alívio para a torcida venezuelana, que começou a temer que os Royals não liberassem o ídolo brasileiro para jogar em uma liga de inverno depois de uma temporada vitoriosa na MLB. “Preciso voltar para lá, nem que seja para jogar só um mês, e agradecer pela oportunidade que me deram de mostrar que eu era capaz de jogar um beisebol de alto nível”, justifica.

Paulo Orlando em ação pelos Cardenales de Lara

Paulo Orlando em ação pelos Cardenales de Lara

Pode parecer sacrificante demais emendar um campeonato desgastante, o melhor do mundo, com outro. Mas Paulo faz questão de mostrar seu carinho pelos momentos na Venezuela. Até chegar em um time que luta pela ponta na MLB, era o beisebol venezuelano que fazia Paulo realizar um pouco o sonho de entrar no campo com a camisa do Corinthians. “Na Venezuela é mais parecido com o clima que tem o futebol aqui no Brasil, motiva de uma forma diferente, pelo menos para mim. A aproximação com o torcedor fanático, a energia que ele passa durante o jogo. Pô, na Venezuela tem gente que vai no hotel fazer festa”, comentou em entrevista ao ExtraTime em fevereiro deste ano. Essa energia toda sempre foi respondida em campo. O brasileiro foi um dos melhores jogadores do time nas duas últimas temporadas. Na primeira, os Cardenales ficaram a uma vitória do título. Na segunda, já com status de um dos grandes nomes da liga, o defensor externo foi selecionado para disputar o All-Star Game.

Antes de se apresentar aos Cardenales, Paulo terá muito o que fazer no Brasil. Descansar e celebrar o título, claro. E visitar a família. Fabrícia e Maria Eduarda, claro, mas também seus pais. Sim, o beisebol ajudou Paulo a se manter longe das ruas na juventude e a ter condições de dar uma vida melhor a sua mulher e sua filha. Mas o beisebol também o ajudou a retomar o contato com seus pais.

Depois de uma entrevista na TV, a Tia Silvana, irmã de sua mãe, o reconheceu. “Ela foi até a casa da minha mãe, falou com ela e me botou em contato. Hoje, as duas moram na casa da minha avó na Praia Grande, eu até dei uma ajuda para arrumar lá. Sempre conversamos, inclusive durante os playoffs. Meu pai também está bem, voltou a morar com a minha tia na Zona Sul de São Paulo.”

O grande título de Paulo Orlando não é o anel da World Series que conquistou em Nova York. É a história que deixou no Brasil.


  • .Jøãø Mär¢øs

    Entrevista sensacional! E demonstrando como o esporte pode ajudar na vida,mesmo não sendo o tão amado futebol !

  • Schmidt

    Sensacional!!!

  • Felipe Rodrigues

    Q historia. Sensacional!!!

  • Alexandre Santiago

    Muito legal a história, cativante mesmo. Que ele se firme cada vez mais na MLB e que seja apenas o primeiro de muitos títulos. Eu joguei beisebol por 15 anos mais ou menos e é muito emocionante para nós ver o beisebol tomando essa dimensão no país do futebol. Eu torço demais pelo Paulo, pelo Yan, pelo Rienzo, essa moçada está mudando a cara do esporte no país, valeu mesmo. #tamojunto

  • Caio Carrara

    O mais incrível, é que mesmo campeão da world series ele ainda não tem a estabilidade para levar a esposa e a filha para morar com ele nos EUA. Em todas entrevistas ele sempre se mostra ser um cara muito pé no chão e focado. Que bela história, muita luta e superação.

  • Diego Chiappetta

    Sensacional!