Quem acompanhou a NHL nos anos 90 ou mesmo quem começou a assistir há uma semana, mas se interessa pela história da liga, lembra ou, pelo menos, sabe do que aconteceu há 20 anos. Um incidente envolvendo Kris Draper e Claude Lemieux explodiu a rivalidade mais quente em uma década de hóquei, Detroit Red Wings e Colorado Avalanche. Nesse fim-de-semana, os dois times fizeram a Stadium Series de Denver e os mesmos veteranos de 1996 e 97 estavam lá.

A bem da verdade, se o tranco de Lemieux explodiu essa rivalidade, o estopim foi aceso um pouco antes. Playoffs de 1996, finais de Conferência Oeste, Detroit Red Wings e Colorado Avalanche. Àquela altura, os Wings estavam há décadas sem vencer a Stanley Cup e vinham de um frustrante vice-campeonato em 1995. Tinham mando de gelo, mas estavam em desvantagem na série: perderam os dois primeiros jogos em casa. Em 23 de maio de 1996, o Colorado Avalanche recebia o Detroit Red Wings para o jogo 3.

O terceiro confronto terminou com vitória de 6 a 4 para os Wings, mas Adam Foote tomou um tranco de Slava Kozlov que o deixou com um talho de vinte pontos na cabeça. Kozlov não sofreu nenhuma punição e, em resposta, Lemieux acertou um soco no russo. Tomou uma penalidade menor. No fim do jogo, Bowman, que estava no ônibus dos Wings, viu Lemieux com sua família no estacionamento da arena e só não o chamou de santo. No dia seguinte, demandou que a liga revisasse o soco de Lemieux em Kozlov, pedindo punição ao jogador do Avalanche. Marc Crawford, técnico dos Avs, reagiu. “E o golpe no Foote?” Ficou por isso mesmo — por enquanto.

Em 29 de maio, no jogo 6, o tal tranco explosivo. Ainda no primeiro período do que seria a decisão do Clarence Campbell Bowl, Lemieux acertou Draper por trás, esmagando sua cabeça contra as bordas. Draper quebrou a mandíbula, o Avalanche venceu por 4 a 1 e avançou para a finalíssima, conquistando sua primeira copa. Punido por dois jogos, Lemieux virou vilão em Detroit.

As consequências do tranco de Lemieux em Draper só seriam conhecidas um ano depois, em 26 de março de 1997. Até aquele dia, Red Wings e Avalanche tinham jogado mais três vezes, todas pela temporada regular 1996-97, três vitórias do time de Denver, franco favorito ao Presidents’ Trophy e ao segundo campeonato da Stanley Cup. Dessas três partidas, apenas uma tinha sido jogada em Detroit, em 13 de novembro. Claude Lemieux não jogou. Aquele 26 de março, portanto, era a primeira partida de Lemieux na Joe Louis Arena desde o incidente envolvendo Draper.

Logo no primeiro período, com o Colorado vencendo por 1 a 0, Brent Severyn, do Avalanche, e Jamie Pushor, dos Wings, travaram a primeira briga do jogo. Na sequência, uma troca de sopapos com mais vontade entre René Corbet (Avalanche) e Kirk Maltby (Wings).

Nada se compararia ao que viria a seguir. Peter Forsberg (Avalanche) e Igor Larionov (Wings), dois dos maiores de todos os tempos, se estranharam e foram às vias de fato. Foi a briga dos europeus que acabou gerando duas imagens clássicas da NHL. Aproveitando o momento oportuno, Darren McCarty partiu para cima de Lemieux. O franco-canadense, que não costumava “arregar”, apenas se agachou para se proteger dos socos de McCarty, companheiro de linha de Draper — a famosa Grind Line. Primeira cena clássica do jogo. Vendo o colega em apuros e ninguém se aproximando para ajudá-lo, o goleiro Patrick Roy deixou a rede e foi para cima de McCarty. Brendan Shanahan se colocou no meio do caminho e se chocou com Roy numa colisão que, segundo o próprio goleiro, comprometeu seu ombro esquerdo pelo restante da carreira. Os dois caíram e Adam Foote, do Avalanche, se juntou à briga. Foi a vez de Mike Vernon deixar o gol dos Wings para entrar na confusão. Roy, que já patinava para longe, viu Vernon e Shanahan em cima de Foote e voltou. Segunda cena clássica, briga de goleiros entre Vernon e Roy.

Adam Deadmarsh e Vladimir Konstantinov brigaram ainda no primeiro período. O jogo teve mais cinco brigas, entre elas um acerto de contas entre Foote e Shanahan, que não haviam sofrido qualquer penalidade na primeira etapa. O segundo período terminou empatado em 3 a 3, portanto, vantagem do Avalanche, 4 a 3. Os Avs chegaram a abrir 5 a 3 no começo do período final, mas os Wings empataram com LaPointe e Shanahan, 5 a 5. Na prorrogação, gol de McCarty, vitória dos Wings por 6 a 5. O episódio ficou conhecido como Banho de Sangue, Quarta-Feira Sangrenta, Briga em Hockeytown ou Noite de Briga na Joe. Da pancadaria generalizada, os Wings partiram em uma arrancada que deu a sonhada Stanley Cup a Detroit, incluindo nova final de Conferência com o Avalanche, desta vez, vencida por 4 jogos a 2.

A rivalidade entre a tradicional franquia de Detroit e a nova franquia de Denver se tornou acirrada. Em novembro de 1997, McCarty e Lemieux voltaram a brigar assim que o jogo começou, após troca de provocações durante o face-off inicial, e dessa vez com o franco-canadense um pouco mais ativo no combate. Em 1º de abril de 1998, outra briga generalizada com os goleiros Roy e Chris Osgood como protagonistas em um jogo que terminou com vitória dos Wings por 2 a 0 e 228 minutos de penalidades. E em 2002, outra briga boa.

Hoje, todos estão aposentados e a história mudou consideravelmente. Na Conferência Leste, o Detroit Red Wings voltou a se concentrar em seus rivais clássicos, os Seis Originais, enquanto o Colorado passou a viver suas próprias rivalidades.

Por isso, para os mais saudosos, esse jogo de veteranos entre Wings e Avalanche, a sexta-feira, foi mais interessante que o evento principal do fim-de-semana. Os velhos capitães Steve Yzerman e Joe Sakic, imortais como Chris Chelios e Ray Bourque, além de personagens dos anos inesquecíveis, 1996, 1997, 1998… todos estavam lá. Claro que os Wings foram vaiados incessantemente, o que não deixa de ser uma homenagem. O Avalanche venceu o jogo que contava por 5 a 2.

Mas o jogo que valia era outro. A partida principal, do sábado, terminou com vitória dos Wings por 5 a 3. O bravo Brad Richards, recordista em número de jogos ao ar livre, marcou o gol vencedor — o “golpe de misericórdia”, de Darren Helm, foi já na rede vazia. Mas tinha muito garoto ali que deve ter prestado muita atenção na partida de sexta. Gabriel Landeskog, Mikhail Grigorenko, Nathan MacKinnon, Tomas Tatar, Dylan Larkin… que toda essa nova geração tenha assistido com respeito ao jogo dos veteranos. Aqueles são os caras em quem devem se espelhar.