Como os Penguins foram do fracasso iminente ao título da NHL em poucos meses

Apostar num título dos Penguins no início da temporada não era assim um absurdo. O reforço de Phil Kessel, que finalmente se livrara do inferno que tinha passado em Toronto, dava à torcida a esperança de que finalmente Sidney Crosby ou Evgeni Malkin teriam um ponta à altura de seu talento. As contratações dos centrais Nick Bonino e Eric Fehr serviriam para dar mais força às duas linhas de baixo.

Ainda assim, o time estava longe de ser favorito. Os fracassos recentes ainda estavam frescos na memória, especialmente a eliminação na primeira fase, na temporada passada, frente ao New York Rangers. A expectativa era de uma campanha na metade de cima da tabela, mas não tão perto do topo, e uma vaga nos playoffs sem grandes turbulências, para, então, partir para o mata-mata, onde a dedicação aliada a alguns lances de sorte pode fazer um time ir longe.

Tudo muito bonito no papel, claro, mas a realidade foi bastante diferente. Crosby e Malkin começaram em uma má fase sem precedentes, principalmente o primeiro. Gols? Escassos em todo o elenco. As excelentes atuações do goleiro Marc-André Fleury nos dois primeiros meses da temporada foram a diferença entre um pesadelo total e uma posição mediana na classificação.

O técnico Mike Johnston não conseguia achar uma solução para os problemas, e o time começava uma queda vertiginosa. O contrato até o fim da temporada não foi suficiente para garantir seu lugar, e ele acabou demitido no início de dezembro. Para sua vaga, foi chamado Mike Sullivan, que estava comando o time de baixo em Wilkes-Barre. Era a primeira chance de Sullivan num banco da NHL em quase dez anos.

O início foi tão tortuoso quanto as últimas semanas da era Johnston. As quatro derrotas seguidas logo de cara fizeram muitos questionar se o problema realmente era o técnico. Para piorar, o ponta Pascal Dupuis foi obrigado a aposentar-se, devido a um problema sanguíneo que o estava obrigando a tomar anticoagulantes.

Título da Copa Stanley? Finais? Àquela altura, simplesmente chegar aos playoffs já parecia uma façanha. A torcida fazia contas: era necessário um aproveitamento de campeão para reverter a situação. Se você fosse apostar em Las Vegas, um eventual título dos Penguins estaria pagando tanto quanto apostas impossíveis, tal como a seleção brasileira ser eliminada em um grupo com Equador, Peru e Haiti (ei, espere aí…).

Além da promoção de Sullivan, o gerente geral Jim Rutherford voltou a dar sua contribuição. Aparentemente sem usar hipnose, conseguiu mandar o defensor Rob Scuderi, que vinha tendo atuações desastrosas, para Chicago, em troca do também zagueiro Trevor Daley. A cara do time começava ali a mudar.

Quando da derrota para os Rangers, em abril do ano passado, Rutherford foi um dos primeiros a admitir que o time de Nova York (assim como o Tampa Bay Lightning, vencedor do Leste na ocasião) tinha um estilo de jogo mais veloz e conseguia despachar para o gelo quatro linhas capazes de fazer estrago, em vez de ter duas linhas que só serviam para tentar conter o adversário, sem muitas esperanças de marcar gols. Kessel tinha sido o primeiro passo do GG nessa direção, e Daley foi o segundo.

Confusão na frente do gol dos Canadiens em jogo contra os Penguins (AP Photo/Gene J. Puskar)

Confusão na frente do gol dos Canadiens em jogo contra os Penguins (AP Photo/Gene J. Puskar)

As mudanças começaram a dar frutos na noite de réveillon, com uma virada sobre os Red Wings em Detroit. Os Penguins saíram perdendo por 2 a 0, mas acabaram virando o jogo para 5 a 2. Essa virada também acabaria servindo para virar a maré do time. Havia mais autoconfiança, e ela aumentou quando o terceiro passo na transformação foi dado, dezesseis dias depois.

Tido como um dos patinadores mais velozes da liga, Carl Hagelin era justamente um dos integrantes dos Rangers de 2014-15 que mais atormentaram os Pens naquela fatídica série: foi dele o gol que selou a classificação do clube nova-iorquino, na prorrogação do jogo 5. O sueco tinha sido trocado com o Anaheim Ducks, sem conseguir se adaptar. Rutherford deu em troca o atacante David Perron, que também nunca se adaptara a Pittsburgh, e o pouco usado zagueiro Adam Clendening.

Também foram peças-chave jogadores que começaram a temporada em Wilkes-Barre, mas ganharam chances com a ascensão de seu ex-técnico. Peças como Bryan Rust, Conor Sheary e Scott Wilson (que se contundiu seriamente em março e não jogou mais na temporada) ganharam mais espaço e, mais importante que isso, conseguiram manter esse espaço com boas atuações. Elas foram especialmente importantes quando Evgeni Malkin se contundiu, ficando quase dois meses parado.

Com um núcleo bem mais ágil, a equipe de Sullivan pôde marcar agressivamente na zona neutra e lutar pelo disco no ataque com mais chances de alcançá-lo. Isso significa ter por mais tempo a posse do disco. Com Johnston, os Penguins tinham a posse do disco por 48,4% do tempo, ocupando a 21.ª colocação da liga nesse quesito; com Sullivan, pularam para 55,4%, tornando-se o segundo time que mais fica com o disco na liga, sendo, disparado, o primeiro da Conferência Leste. Pelo porte físico do elenco, não era possível se impor pela força, mas em geral isso nem foi necessário — você não pode dar trancos no que não consegue alcançar, certo? E, se você não consegue dar trancos, como vai recuperar o disco?

Quando Hagelin chegou, os Penguins tinham acabado de perder dois jogos seguidos, para Hurricanes e Lightning, ambos na prorrogação. Demoraria muito tempo para a situação se repetir. Sem novas derrotas em sequência, a ascensão foi meteórica. Inicialmente brigando pelas vagas da repescagem, o time passou a brigar pelo mando de gelo na primeira fase e só não lutou também pelo Troféu dos Presidentes porque o Washington Capitals estava fazendo uma campanha impecável.

A recuperação valeu a segunda melhor campanha do Leste, mas o formato atual dos playoffs não transformou isso em um caminho mais fácil. E não eram só os adversários que preocupavam: Fleury estava sentindo pela segunda vez os sintomas de uma concussão e foi temporariamente afastado. O calouro Matt Murray já estava se ambientando em Pittsburgh, com vistas à próxima temporada, e vinha atuando bem até também se contundir, no último jogo da temporada regular.

De repente, a posição mais importante no gelo, até ali resolvida não só para estes playoffs como para a próxima década, virou um ponto de interrogação. Os Penguins teriam de pelo menos começar a enfrentar os Rangers do goleiro Henrik Lundqvist com Jeff Zatkoff no gol. E ainda sem Malkin, que só voltaria no jogo 2, ainda sem estar 100%. Reserva de Fleury na temporada retrasada, foi relegado a Wilkes-Barre durante quase toda a temporada de 2014-15, mas recuperou o posto de segundo goleiro em setembro passado.

Durou menos do que ele imaginava, com as excelentes atuações que Murray vinha tendo na AHL. Ficou impossível segurá-lo em Wilkes-Barre, e Zatkoff virou o terceiro goleiro, situação bastante rara na NHL. Rutherford conversou com ele, explicando a situação e contando com sua colaboração. Agora, ele seria novamente necessário.

Torcedor do Pittsburgh Penguins mostra os discos que ganhou (Divulgação/Twitter/Pittsburgh Penguins)

Torcedor do Pittsburgh Penguins mostra os discos que ganhou (Divulgação/Twitter/Pittsburgh Penguins)

Zatkoff foi um dos principais contribuintes na vitória por 5 a 2 no jogo 1. Os Rangers recuperaram-se no jogo 2, vencido por 4 a 2. Zatkoff não jogou tão bem, mas também não entregou a partida. Ainda assim, era necessário que um dos dois primeiros goleiros voltasse, e Murray foi o primeiro a ter condições. Assumiu o gol no jogo 3 e teve atuações espetaculares nas três vitórias seguidas que fecharam a série, levantando a discussão se Fleury deveria ser o titular mesmo quando se recuperasse.

Graças ao regulamento que privilegia os confrontos intradivisão, os dois melhores times do Leste na temporada regular tiveram de se enfrentar logo na segunda fase. Os Penguins teriam de enfrentar os poderosos Capitals de Braden Holtby, favorito ao Troféu Vezina. O time da capital americana saiu na frente com uma vitória na prorrogação, mas três vitórias seguidas colocaram os Penguins numa posição confortável.

O jogo 5 deu uma curta sobrevida à série, e o jogo 6 chegou a parecer que terminaria com goleada quando os Penguins abriram 3 a 0. Os Capitals lutaram até o fim, forçaram a prorrogação, mas, com as línguas de fora depois de correr atrás do veloz rival por quase duas semanas, sucumbiram com um gol de Nick Bonino, que começava a esquentar depois de uma temporada regular medíocre. Assim, pela oitava vez em nove confrontos nos playoffs, os Caps foram eliminados pelos Pens.

As finais da Conferência Leste colocariam em lados opostos dois clubes de estilos muito parecidos. O Lightning chegara ali sem grandes problemas para derrotar Red Wings e Islanders, mas sofria com a ausência de dois de seus principais jogadores: o atacante Steven Stamkos e o defensor Anton Stralman. Isso não o impediu de sair na frente, com uma vitória por 3 a 1.

Os Penguins empataram a série com o primeiro gol de Crosby numa prorrogação em playoffs e depois viraram com uma vitória cujo placar (4 a 2) não refletiu o domínio que eles tiveram na partida. Uma classificação sem maiores sobressaltos estava por vir? Não. O Lightning chegou para o jogo 4 com sangue nos olhos e abriu 4 a 0 antes do segundo intervalo, na primeira atuação abaixo da média de Murray — e com Daley sofrendo uma contusão que encerrou precocemente sua pós-temporada. Os Penguins correram atrás do resultado, mas só conseguiram diminuir o prejuízo para 4 a 3. Série empatada novamente.

Diante do que se transformou numa melhor de três, Sullivan optou por escalar Fleury no jogo 5. Os Penguins abriram 2 a 0 e, depois, 3 a 2, mas não conseguiram segurar o placar, sofrendo o empate a menos de quatro minutos do fim do tempo regulamentar. Na prorrogação, Tyler Johnson não precisou de nem um minuto para deixar os Pens à beira do que seria uma frustrante eliminação.

Com as costas contra a parede, foi a vez de os Penguins entrarem no gelo com sangue nos olhos — e Murray de volta ao gol. Abriram 3 a 0, sofreram alguma pressão no terceiro período que diminuiu a vantagem para um gol, mas fecharam o placar em 5 a 2, forçando o jogo 7, em Pittsburgh. Nele, um Lightning claramente cansado perdeu por 2 a 1 e só não sofreu uma goleada graças à atuação do goleiro Andrei Vasilevskiy, sólido durante toda a série.

Tomas Hertl, do San Jose Sharks, é perseguido por dois jogadores do Pittsburgh Penguins (AP Photo/Keith Srakocic)

Tomas Hertl, do San Jose Sharks, é perseguido por dois jogadores do Pittsburgh Penguins (AP Photo/Keith Srakocic)

Os Sharks, adversários nas finais da Copa Stanley, prometiam ser não apenas um time rápido como também intimidador. Talvez isso funcionasse contra os campeões do Leste. Talvez, mas em outro ano, com outro elenco, em outras condições. Mesmo de maneira apertada, os Penguins venceram os dois primeiros jogos em casa, com gols antológicos como o de Bonino nos minutos finais do jogo 1 (com a já célebre narração em punjabi de Harnarayan Singh) e o de Sheary na prorrogação do jogo 2, depois de Crosby basicamente cantar a jogada inteira antes do faceoff.

O jogo 3 serviu para mostrar aos Sharks que Murray era mortal: o goleiro falhou nos gols de Joel Ward, que forçou a prorrogação, e de Joonas Donskoi, no tempo extra. O último, especialmente, mostrou um ponto fraco que já tinha sido explorado pelos Capitals e o seria novamente pelos Sharks, uma falha no posicionamento quando o atacante passava por trás do gol com o disco dominado.

Felizmente para a torcida sphenisciforme, Murray voltou ao normal no jogo 4 e ajudou a selar a vitória por 3 a 1 que deixou a série com placar idêntico. Com o jogo 5 marcado para Pittsburgh, os Penguins teriam, pela primeira vez em sua história, a chance de conquistar a Copa Stanley em casa — os título de 1991, 1992 e 2009 foram conquistados, respectivamente, em Bloomington (Minnesota), Chicago e Detroit, sempre na primeira tentativa após a terceira vitória.

Quiseram os deuses do hóquei que essa escrita fosse prorrogada. Os Sharks fizeram 2 a 0 com menos de três minutos de jogo, como nova falha de Murray similar ao gol de Donskoi cinco dias antes, sofreram o empate menos de quatro minutos depois, mas acharam um gol e depois suportaram a enorme pressão exercida pelos Penguins. O goleiro Martin Jones foi um verdadeiro herói diante da avalanche de borracha vulcanizada que teve de enfrentar. O jogo, que tivera cinco gols nos primeiros cinco minutos e pouco, só teria mais um, gol rede vazia, quase no fim.

A chance de retorno aos dias de glória não seria desperdiçada. Os Sharks, cansados como todos os adversários dos Penguins nestes playoffs, não conseguiram oferecer a resistência necessária. Brian Domoulin abriu o placar no primeiro período. Logan Couture chegou a empatar no segundo período, mas o placar só ficou assim por pouco mais de um minuto, até Kris Letang, praticamente sozinho, pegar o disco na zona neutra, segurá-lo como se ele fosse de metal e seu taco, um ímã, dar a volta no gol e restaurar a vantagem.

O placar deveria fazer os Sharks mostrar o mesmo desespero do início do segundo período, quando bombardearam Murray, mas o time retraiu-se, especialmente no terceiro período, quando chutou apenas duas vezes a gol. Os Penguins, por sua vez, ainda paravam em Jones, mas, quando ele saiu, no último suspiro do adversário, Crosby — Crosby! — bloqueou um chute, Hornqvist ficou com o rebote e definiu o jogo. Não havia mais tempo para nada, e a Copa, que, seis meses antes, parecia inalcançável, ganhou uma passagem só de ida para Pittsburgh.

Crosby ficou com o Troféu Conn Smythe, muito mais pela liderança exercida do que pela sua produção numérica (nada inexpressiva, é bom lembrar). Kessel, que foi muito mais consistente em termos de números, talvez merecesse mais esse prêmio, especialmente depois de tudo o que passou no outro lado da fronteira, mas não dá para dizer que ele não ficou em boas mãos.

Assim, claro, como a Copa Stanley.