Como o tradutor de Zico pode ajudar a colocar o beisebol brasileiro no Pan

Muita correria. O Campeonato Sul-Americano de Beisebol está se aproximando, e Yuji Izawa mal tem tempo para falar ao telefone. Compreensível. Ele tem de ir ao congresso técnico da competição e ao Aeroporto Marechal Rondon pegar as delegações de Argentina e Bolívia. Quase ao mesmo tempo, como se ele fosse dois ou três. E está assim há dois meses, repletos de reuniões com autoridades cuiabanas e mato-grossenses e potenciais patrocinadores e verificações das obras nos estádios que recebem o evento. Pai – ou um dos pais, como ele faz questão de salientar – tem de cuidar da criança.

A existência do Sul-Americano de Beisebol de 2015 deve muito a Izawa e à comunidade do esporte no Mato Grosso. O torneio estava programado para dezembro de 2014 em Lima. Em cima da hora, os peruanos desistiram da organização por falta de recursos e a competição ficou moribunda, sem sede, sem data. O fato de, neste sábado, Colômbia e Brasil disputarem a final, que vale uma vaga para os Jogos Pan-Americanos deste ano, marcados para julho em Toronto, é quase um milagre.

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A história dessa improvável competição começou longe, e das formas mais improváveis. Sérgio Yuji Izawa começou a jogar beisebol em clubes da comunidade japonesa do Mato Grosso. Teve de parar na categoria pré-júnior, devido aos estudos. Quando concluiu o ensino médio, decidiu tomar o mesmo rumo de milhares de jovens brasileiros de origem nipônica na década de 1990: atravessou o mundo e virou mais um dekassegui no Japão.

Izawa foi parar em Kawasaki, cidade na região metropolitana de Tóquio. Trabalhava na fábrica de caminhões da Isuzu durante o dia e estudava japonês à noite. “Meus pais migraram para o Brasil muito novos e foram direto para a roça trabalhar. Por isso, sempre quiseram que os filhos se formassem em uma faculdade”, conta. O mato-grossense aprendeu japonês e ingressou na Tokyo Metropolitan College of Commerce. Após formado em comércio exterior, conseguiu um emprego em uma agência de turismo na capital japonesa.

Na mesma época, o Japão se abria ao futebol. A J-League havia sido criada e dezenas de brasileiros eram contratados. O lateral-direito Jorginho, campeão do mundo em 1994, participaria de uma coletiva da Jomo Cup (espécie de Jogo das Estrelas da liga) como jogador do Kashima Antlers. Izawa foi contratado para fazer a tradução. Dias depois, uma equipe da empresa de Zico fez uma proposta para o ex-funcionário da fábrica da Isuzu se tornar o intérprete do craque.

Yuji Izawa com Zico em 1997 (Arquivo pessoal)

Yuji Izawa com Zico em 1997 (Arquivo pessoal)

O Galinho já havia encerrado a carreira, mas tinha várias atividades no Japão. Eram clínicas de futebol, comerciais de TV, eventos e palestras por todo o país. Zico ainda era um dos ícones do beach soccer. Izawa o acompanhava em boa parte desse processo. “Aprendi muito a enxergar oportunidades de negócio onde as pessoas viam problemas e ainda construí uma boa rede de contatos.”

Após o trabalho no Japão, Izawa se mudou para os Estados Unidos, onde estudou administração da Franklin University, em Columbus (estado de Ohio). Foi trabalhar no escritório de San Diego da PEC, um fabricante de fusíveis de automação. Atravessar a fronteira mexicana para visitar a fábrica da empresa em Tijuana era uma tarefa diária.

Em 2002, o ex-dekassegui resolveu retornar a Cuiabá para ter uma rotina mais regular (e com menos passagens em hotel). Investiu na compra de uma franquia da Fisk na capital mato-grossense. Além disso, passou a trabalhar em entidades ligadas à comunidade japonesa local, que haviam perdido força depois da ida de tantos brasileiros para o Japão na década anterior. E aí essa trajetória de Izawa encontra o beisebol.

Primeiro, ele entrou em um time local, sem recursos. Com o tempo, passou a organizar campanhas de arrecadação, vender publicidade no estádio para o empresariado local e melhorar as condições para a realização de campeonatos estaduais. “Começamos em um campo cheio de carrapicho. No final, tínhamos um técnico trazido do Japão, arquibancadas pintadas e uma gaiola de rebatidas importada dos Estados Unidos”, comenta. Acabou eleito presidente da Federação Matogrossense de Beisebol e Softbol.

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O beisebol não era para ser um trabalho. A experiência com esporte havia sido importante para impulsionar a carreira, mas cansativa. “Quando trabalhava com futebol, ficava viajando o ano inteiro e não tinha residência fixa. Também percebi que pouca gente ganha bem, mas não parece porque a mídia só fala do 1% que tem sucesso”, reflete.

Yuji Izawa com Junior, Leonardo e Jorginho em 1996 (Arquivo pessoal)

Yuji Izawa com Junior, Leonardo e Jorginho em 1996 (Arquivo pessoal)

O retorno ao beisebol cuiabano e a entrada na organização de competições mato-grossenses nos leva direto ao que se seguiu após a desistência do Peru de sediar o Sul-Americano de Beisebol. Com a ameaça de não-realização do torneio, o que complicaria a definição do representante da América do Sul no Pan de Toronto, a bola passou para o Brasil. A direção da CBBS ligou para Izawa e perguntou se ele não conseguiria organizar a competição em Cuiabá e na vizinha Várzea Grande. “Eu e os outros quatro diretores da federação decidimos bancar o torneio, mesmo que assumíssemos os prejuízos entre nós.  Corremos atrás do governo, da prefeitura e de empresas privadas. Conseguimos apoio para trocar o telhado das arquibancadas, construir dois vestiários novos e cinco banheiros, trocar a tela do alambrado e o placar.”

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Deu tempo. O Sul-Americano começou no último sábado com cinco seleções – Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia e Peru (a Venezuela já tem vaga automática no Pan e não disputa o torneio) – e até tem transmissão dos jogos pelo YouTube. Os colombianos dominaram a primeira fase, com quatro vitórias. A seleção brasileira bateu argentinos (em um duro 2 a 1), bolivianos e peruanos e terminou na segunda posição. Nas semifinais, disputadas nesta quinta, o Brasil fez 4 a 2 na Argentina e garantiu uma vaga na final.

A Colômbia é favorita na decisão. Nada surpreendente se considerada a história do beisebol colombiano, a existência de uma liga profissional no país e ao fato de o Brasil estar desfalcado de jogadores que atuam no exterior. Mas, dentro de todas as circunstâncias, só o fato de o torneio estar acontecendo já é surpreendente. Ainda mais porque essa história começou em Cuiabá, passou pelo Japão, pela fronteira mais vigiada do mundo antes de voltar ao Mato Grosso.

 


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    ehehehe..olha que trampo de vida desse cara…estudou em universidades bacanas e mesmo assim, depois disso..nao foi sequer aproveitado da maneira adeuqada.
    foi essa vida amalucada e corrida do esporte é que deu a ele algo…
    Bacana historia de vida…