UBIRATAN LEAL | Os novos ricos

26/jan/2012 | Ubiratan Leal

Todo ano é a mesma coisa. Torcedores dos Yankees, dos Red Sox e ultimamente dos Phillies ficam esperando a enxurrada de craques que seus times contratarão para alimentar uma das maiores rivalidades dos esportes. Claro, eles farão ofertas astronômicas para inibir qualquer outra equipe a tentar concorrer pelos melhores jogadores sem contrato. Por isso, não havia quem achasse que um dos dois (ou ambos) levariam Albert Pujols e Prince Fielder, mesmo com Mark Teixeira, Adrián González e Ryan Howard na primeira base. Também levariam CJ Wilson, Yu Darvish ou Gio González para reforçar a rotação. E José Reyes não seria uma má ideia para ter um shortstop bom na defesa, bom no bastão e bom correndo bases.

Mas novaiorquinos e bostonianos ficaram chupando o dedo. Fielder foi para Detroit, Pujols e Wilson para Anaheim, Darvish para Dallas, Reyes para Miami e González para Washington. Todas contratações milionárias, do tipo que só Yankees, Red Sox, Phillies e, nos momentos de delírio, Cubs faziam. A investida pesada desses times mostra uma nova etapa do sistema econômico da MLB. Uma etapa em que os canais de TVs regionais têm força cada vez maior no faturamento das franquias.

Na MLB, os contratos nacionais de TV não são tão importantes quanto na NFL. ESPN tem os direitos do Opening Day e um jogo de quarta e outro de domingo à noite. A Fox tem uma partida no sábado e parte dos playoffs (incluindo a World Series). A TBS tem a outra parte dos playoffs (não inclui a World Series). Como praticamente todo dia tem rodada cheia (com 15 jogos), o percentual de jogos transmitidos em rede nacional é bem pequeno.

Por isso, a relação do torcedor de beisebol é muito grande com o canal esportivo regional. E, ao contrário das sucateadas TVs educativas brasileiras, são empresas com alguma força, até porque a maior parte está ligada à Fox ou à NBC. Elas pagam pelos direitos de transmissão de todos os jogos de temporada regular da equipe para o mercado local. Esse direito se sobrepõe, inclusive, aos das redes nacionais. Ou seja, um Yankees x Red Sox de domingo à noite é transmitido pela ESPN para todos os Estados Unidos, menos em Nova York e na Nova Inglaterra, onde o clássico fica no canal local.

Os canais regionais que se estruturaram mais rápidos e conseguiram oferecer dinheiro significativo para os times foram os dos mercados mais consolidados. Isso fez a diferença econômica entre franquias de Nova York, Los Angeles, Chicago, Boston e Philadelphia explodirem em relação aos demais. Veja o ranking das maiores folhas salariais no início da temporada 2010:

1)      New York Yankees
2)      Boston Red Sox
3)      Chicago Cubs
4)      Philadelphia Phillies
5)      New York Mets
6)      Detroit Tigers
7)      Chicago White Sox
8)      Los Angeles Angels of Anaheim
9)      Seattle Mariners
10)  San Francisco Giants
11)  Minnesota Twins
12)  Los Angeles Dodgers*
13)  St Louis Cardinals
14)  Houston Astros
15)  Atlanta Braves
16)  Colorado Rockies
17)  Baltimore Orioles
18)  Milwaukee Brewers
19)  Cincinneti Reds
20)  Kansas City Royals
21)  Tampa Bay Rays
22)  Toronto Blue Jays
23)  Washington Nationals
24)  Cleveland Indians
25)  Arizona Diamondbacks
26)  Florida Marlins
27)  Texas Rangers
28)  Oakland Athletics
29)  San Diego Padres
30)  Pittsburgh Pirates

*Já efeito dos problemas econômicos da família McCourt. Dois anos antes, os Dodgers eram sétimo no ranking.

Essa lista reflete o que entendemos hoje por times mais ricos e mais pobres. Afinal, ela privilegia as franquias que resolveram antes a questão de suas TVs regionais. Mas é um fenômeno cíclico. Duvida? Então vamos às maiores folhas salariais de 1998:

1)      Baltimore Orioles
2)      New York Yankees
3)      Los Angeles Dodgers
4)      Atlanta Braves
5)      Texas Rangers
6)      Cleveland Indians
7)      Boston Red Sox
8)      New York Mets
9)      San Diego Padres
10)  Chicago Cubs
11)  San Francisco Giants
12)  Anaheim Angels
13)  Houston Astros
14)  Colorado Rockies
15)  St Louis Cardinals
16)  Seattle Mariners
17)  Kansas City Royals
18)  Chicago White Sox
19)  Toronto Blue Jays
20)  Milwaukee Brewers
21)  Arizona Diamondbacks
22)  Philadelphia Phillies
23)  Tampa Bay Rays
24)  Minnesota Twins
25)  Oakland Athletics
26)  Cincinnati Reds
27)  Detroit Tigers
28)  Florida Marlins
29)  Pittsburgh Pirates
30)  Montréal Expos

As duas listas são muito diferentes. E o motivo é evidente. Nos anos 90, o boom não era das TVs regionais, mas dos novos estádios. A partir do Oriole Park, inaugurado em 1992, a MLB descobriu que era possível aumentar significativamente a média de público – e, portanto, o faturamento em bilheteria e em venda de produtos – com a construção de estádios modernos, mas com jeito acolhedor. Nada de nave espacial. O negócio é ser grande, espaçoso, confortável e cheio de lojas, mas parecer um estádio antigo. O que os americanos chamam de “retro ballpark”.

Os times que entraram rápido nessa onda tiveram aumento radical na sua renda. Foram construídas arenas nesse estilo em Baltimore (1992), Cleveland (1994), Dallas/Arlington (1994), Denver (1995) e Atlanta (1996). Isso teve impacto direto nos investimentos no elenco. Basta ver a posição de Orioles, Indians, Rangers e Braves no ranking de 1998. Apenas Yankees e Dodgers, que já possuíam torcida fanática e estádios enormes podiam fazer frente.

A fase dos estádios retrô está praticamente encerrada. Quase todas as franquias estão de casa nova ou conseguiram remodelar as antigas para se adaptarem à nova realidade. Com isso, houve uma consolidação econômica e a lógica de que o time de mercado grande fatura mais e o time de mercado pequeno fatura menos se restabeleceu. Uma lógica que ficou mais evidente com as redes regionais crescendo antes nos mercados mais fortes.

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Agora, os times de mercados médios estão em fase de renovação de contrato de suas TVs regionais. E esses canais já estão mais consolidados, a ponto de pagarem valores muito (muito mesmo) maiores que anteriormente. A receita dos clubes cresceu repentinamente, e o resultado disso são mais investimentos. Detroit levou Victor Martínez e Prince Fielder para se tornar a grande potência do Meio-Oeste. Washington levou Jayson Werth e pagou valores impressionantes para os recrutados Stephen Strasburg e Bryce Harper para ameaçar os Phillies. Texas contratou Darvish e Adrián Beltré para concorrer com os Angels (apesar de ser de Los Angeles, têm espaço de mercado muito menor que os Dodgers e, por isso, tem potencial econômico menor), que botaram a mão no bolso para ficarem com CJ Wilson e Pujols.

Obs.: o Miami entra em uma categoria à parte. O time ainda está na fase de transição dos estádios antigos para os retrô. Então, o boom econômico dos Marlins tem a ver com a projeção de aumento na receita de estádio. E é por isso que dirigentes de Rays e Athletics querem tanto sair de seus estádios conceitualmente antiquados.

A expectativa desses times é usar o novo dinheiro do canal esportivo regional para melhorar o time. Isso pode criar um zunzunzum na cidade, que manterá em bom nível a receita de bilheteria e a audiência da própria TV local, criando um processo autossustentável.

Isso não significa que a era de domínio econômico de Yankees, Red Sox e Phillies tenha acabado. Esses três times ainda lideram o ranking de folhas salariais. Além disso, em alguns anos a MLB passará por algum outro fenômeno, que alçará o faturamento das franquias em alguma frente pouco explorada hoje. É só um ciclo. E os times médios querem aproveitar o momento favorável para encurtar a distância. Podem até fazer bobagem e ficarem comprometidos até o final da década. Mas estão tentando fazer algo novo. Melhor para o público em geral.

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