Carnaval mais festa junina mais dia das crianças: bem-vindo ao Halloween

“Papai, vai ser meu primeiro Halloween como diabética”, me disse Alice, 8 anos, sem nenhum pingo de melodrama na voz, como se dissesse “vai ser meu primeiro Natal com o cabelo curto”. Ela ficou diabética, como eu sou há 38 anos, em maio, e provavelmente porque cresceu vendo o pai fazer coisas esquisitas como espetar a barriga e furar os dedos toda hora, não viveu nem cinco minutos de tristeza por causa disso. O que não a impediu de conceber uma estratégia para a data – não se preocupe, ela não vai ficar sem os doces, não. Nem eu!

Diabéticos tipo 1, como nós dois, podem comer doces, desde que calculem quanto de insulina precisam tomar para compensar. Nunca dá certo (hehehe), mas a gente vai corrigindo durante o período! Ou seja: Alice vai comer os doces que gosta, e fez um plano todo especial pra isso. Como fez também um plano especial para a fantasia que ia usar, para qual festa ia querer ir, com quem ia querer fazer o “trick or treat”… É um grande momento esse Halloween, surpreendentemente pra quem vem de fora, e a verdade é que é bacana, bem bacana, mesmo que você não pretenda comer nenhum doce – nem nada que contenha abóbora.

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Para as crianças, é claro, os doces são a melhor parte, mas mesmo para os menores dos menores, a brincadeira de se fantasiar e sair pela rua em grupos é tão importante quanto encher a cara de doce ruim. E bom também.

O Halloween, arrisco, é uma mistura de carnaval, que aqui não tem, com Dia das Crianças, que também não tem. Todo mundo que pode se fantasia. Na padaria, no restaurante, no posto. Todo mundo. As pessoas pensam nisso com semanas de antecedência. O comércio se prepara com sacos e sacos de doces, Quase ninguém acha ruim distribuir doces para as crianças, embora, é verdade, a gente perceba que alguns compram uns sacos de 5 mil balas por 50 centavos.

A festa tem um componente de comunidade que a aproxima também de uma festa junina. As pessoas decoram as casas em variados níveis de sofisticação, de uma abóbora pintada na porta até jardins inteiros, terrenos baldios do bairro transformados em terrenos baldios temáticos. Muita gente recebe os vizinhos, e não são poucas as casas que se transformam completamente. O metrô fica cheio de zumbis, as calçadas de lobisomens, chewbaccas, super-heróis…

Duas pessoas fantasiadas pegam o metrô para ir a festa de Halloween em Nova York (AP Photo/Tina Fineberg)

Duas pessoas fantasiadas pegam o metrô para ir a festa de Halloween em Nova York (AP Photo/Tina Fineberg)

Como aqui é o Estados Unidos, Capitalismoland, a bagaça degringola violentamente também, claro. Halloween é uma desculpa perfeita para as maiores barbaridades (não) alimentícias. Algumas viram moda, e depois tradição, como o café com leite com abóbora do Starbucks (em inglês chama Pumpkin Latte, bem mais bacana, né?) Mas tem porradas de Doritos de abóbora ou coisas parecidas com isso – cheetos de chocolate, não duvide. Fora a venda de fantasias, decorações, cartões, sangue artificial, cicatrizes para colocar na pele…

Se você supera isso, e não é difícil, porque pra morar aqui você tem que superar essa supercomercialização de qualquer coisa o tempo todo, o negócio é bem divertido. De uma maneira até difícil de descrever, é um dia alegre para todos, um dia de celebração de algo que, para mim, é difícil de sacar. Pode ser que seja o fim dos dias mais longos, quentes e claros, e que todos estejam se preparando para um par de meses em que ficar em casa é a melhor estratégia.

Para as crianças, uma hora a festa acaba – com a barriga e as veias cheias de açúcar, “sugar crazy” como dizem os gringos, elas demoram um pouco pra desligar, mas desligam. Para os que não têm filhos, porém, e muitos dos que têm, é aí que começa o halloween – a hora que acaba o Dia das Crianças começa o carnaval! Festa a fantasia a rodo, amigos e amigas. E a galera com um espírito “diabólico”.

Não queira saber o que acontece. Até porque esse pai de três aqui não vai poder contar, nesse pedaço da festa eu também já estou dormindo!


  • Darcio Vieira

    Vendo o que poderia ser feito aqui para o dia do nosso folclore. Seria épico.