Torcedores brasileiros brincam durante derrota do Brasil por 9 a 1 para a Grã-Bretanha no hóquei na grama (AP Photo/Dario Lopez-Mills)

Brasileiro vaiou muito porque se envolveu com a Olimpíada. Isso é ótimo

Zoeira (zoh-AIR-ah)

Tecnicamente, zoeira significa cacofonia, ou um momento em que alguém está brincando com você. Em linguagem moderna, refere-se ao ato de brincar toda hora, mesmo quando as coisas estão mal. Isso vem principalmente quando surgem notícias ruins e os brasileiros rapidamente fazem um milhão de memes divertidos sobre isso. Existe um ditado no Brasil: ‘A zoeira nunca acaba’, ou seja, brasileiros nunca param de brincar. Em sua essência, a palavra zoeira captura a habilidade cultural brasileira de tornar leve uma situação ruim.”

Dias antes de os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro começarem, o jornal americano Washington Post publicou um artigo em que a autora, a correspondente Shannon Sims, aponta seis palavras que considera fundamentais para se entender o momento do Brasil. A lista tem “crise”, “gourmetização”, “petralha”, “coxinha” e “jeitinho”. “Zoeira” fecha a relação, e talvez tenha sido a mais importante para um estrangeiro que tentou entender a torcida brasileira. Nem todos conseguiram.

O comportamento dos brasileiros nas arquibancadas foi um dos grandes temas da Rio-2016. Muitos atletas e jornalistas reclamaram das constantes vaias e do barulho fora de hora nas disputas. O caso mais notório foi o de Renaud Lavillenie, que foi apupado pelos torcedores durante a disputa com Thiago Braz pelo ouro no salto com vara. O francês perdeu, reclamou, comparou sua situação com a de Jesse Owens em 1936, recebeu vaias novamente na hora de receber a medalha de prata e chorou no pódio. Outros atletas também tiveram algum problema com os torcedores, incluindo estrelas como Rafael Nadal, Kohei Uchimura e Teddy Riner. Mas não eram só os estrangeiros: provavelmente o atleta que mais perseguido em alguma disputa foi um brasileiro, Renato Augusto no Brasil 0x0 Iraque do futebol masculino realizado em Brasília.

A falta de educação da torcida virou um dos temas da cobertura dos Jogos, que colocou a responsabilidade na “cultura do futebol”. Como o brasileiro só está acostumado a ir a uma instalação esportiva para ver futebol, acaba se vendo outras modalidades como se fosse uma partida do Flamengo, do Corinthians, do Grêmio ou do Bahia (e até reforça isso ao ir à arena olímpica usando a camisa de seu clube do coração). E, claro, em vários esportes a postura padrão não é a de gritar ou vaiar, ao menos em momentos-chave da disputa.

De fato, o torcedor brasileiro precisa se acostumar com as particularidades de cada competição. Vaiar um atleta no pódio é um comportamento reprovável. Vaiar um atleta em um momento de concentração (saque no tênis, salto no atletismo, tiro no tiro esportivo ou com arco, duelo na esgrima, uma acrobacia na ginástica) é igualmente ruim. Isso tudo é verdade e passar do limite nessas situações foi motivo de reclamações justas.

Aviso no telão pedindo para a torcida controlar o impulso de vaiar (Ubiratan Leal/ExtraTime)

Aviso no telão pedindo para a torcida controlar o impulso de vaiar (Ubiratan Leal/ExtraTime)

Do mesmo jeito que os brasileiros merecem críticas por vaiar indiscriminadamente, também é verdade que algumas críticas foram indiscriminadas, colocando coisas diferentes dentro do mesmo balaio e passando do limite. Houve menções negativas ao fato de a torcida vaiar uma dupla da Malásia e apoiar uma da Austrália no badminton, sendo que o “erro” no caso foi não ser neutro, como se esperava. Houve até quem criticasse o fato de se vaiar a China no duelo contra o Brasil no vôlei feminino, alegando que torcer por um lado não significa que seja preciso apupar o outro.

Aí já se misturam coisas diferentes. Pode-se dizer que o brasileiro levou às arquibancadas olímpicas sua cultura de futebol, mas talvez seja mais preciso dizer que o brasileiro levou não apenas seu lado futebolístico, mas seu jeito de ser como um todo. Brasileiros tendem a ser passionais e a externar suas emoções. Latino-americanos em geral são assim, e o comportamento dos argentinos nas disputas do Rio de Janeiro mostram isso. Inclusive quando se passou do limite: na final do tênis masculino, entre Andy Murray e Juan Martín del Potro, o britânico errou um voleio importante no final do jogo porque um argentino gritou na arquibancada com o objetivo claro de atrapalhar a jogada. Foi errado, foi constrangedor.

O esporte que expõe melhor as diferenças culturais nas arquibancadas é o futebol, por ser a única modalidade realmente mundial. Os torcedores se manifestam de jeitos diferentes em cada lugar do planeta, seja América Latina, Estados Unidos, Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra, Sérvia, Marrocos, Japão ou África do Sul. E muito desse comportamento é reflexo de cada povo.

O futebol e o jeito passional não foram os único fatores culturais no comportamento dos brasileiros na Rio-2016. Outro, provavelmente muito mais relevante, foi a zoeira. Tanto quanto empurrar um atleta local ou atrapalhar o oponente, as arquibancadas queriam é brincar:

– No massacre dos Estados Unidos sobre a China no basquete masculino, a torcida (boa parte amante de NBA e admiradora óbvia dos norte-americanos) adotou os chineses simplesmente pela “zoh-AIR-ah”. Quando a diferença no placar chegou a 50 pontos, começou a gritar “Eu acredito! Eu acredito!”. Quando saía uma cesta asiática, o canto mudava para “Vamos virar, Chi-na! Vamos virar, Chi-na! Vamos virar, Chi-na-aaaa!”. E, nos minutos finais, fez o “olé” a cada passe trocado pelos chineses;

– No tênis, Novak Djokovic foi adotado pela torcida depois de várias declarações simpáticas aos brasileiros. Mas a tabela o colocou – ao lado de Nenad Zimonijc – diante de Marcelo Melo e Bruno Soares. As arquibancadas vibraram com a dupla da casa, mas soltou “Eiro, eiro, eiro, Djokovic é brasileiro!” algumas vezes. Afinal, era preciso apoiar os brasileiros, mas sem desagradar ao amigo sérvio;

– No boxe, os torcedores chegaram a vibrar com as intervenções de um árbitro, simplesmente por ele ser brasileiro;

– No handebol, o goleiro Thierry Omeyer estava parando o ataque da Argentina e foi homenageado com um “PQP, é o melhor goleiro do Brasil, Zidane”. Omeyer, como Zizou, é francês e careca;

– No rugby sevens, Fiji virou o xodó porque era um país improvável – ainda que uma potência na modalidade – e tinha levado um grupo de torcedores bastante carismáticos.

Torcedor de Fiji no estádio de rugby: carisma recompensado com apoio dos brasileiros (AP Photo/Robert F. Bukaty)

Torcedor de Fiji no estádio de rugby: carisma recompensado com apoio dos brasileiros (AP Photo/Robert F. Bukaty)

Mais do que reclamar da falta de cultura esportiva ou do excesso de cultura futebolística, podemos saudar o fato de que, antes de tudo, o brasileiro se divertiu nos Jogos Olímpicos. O brasileiro saiu de casa, gastou um bom dinheiro, enfrentou fila e comeu lanche ruim e caro, viu hóquei na grama, esgrima, boxe, tênis, natação, atletismo e tantos outros esportes e, no final das contas, se divertiu. Deixou-se levar pelo espírito da zoeira e brincou nas arenas. Escolheu um lado por motivos dos mais diversos (solidariedade regional, solidariedade com outra nação em desenvolvimento, preferência política, fragilidade técnica) e torceu. Vaiou, vibrou, se envolveu com a disputa e com os demais torcedores a seu lado.

Se as autoridades esportivas souberem manter na cabeça das pessoas a lembrança de quão divertido foi ver outras modalidades, talvez consigam levar um pouco mais de público a futuras competições realizadas no Brasil. E, se isso acontecer, aos poucos os torcedores entenderão as particularidades do jeito de torcer de cada competição, preservando seu jeito passional, mas sabendo que, em alguns momentos, ele precisa ser silenciado.


  • Cate Meddoutom

    Só no Brasil que um jornalista é capaz de dizer que “má educação” é ótimo. Vergonhoso..

    • Cadu

      Não foi isso que ele quis dizer, me passa a impressão que a única leitura feita por todos foi apenas do título… Eu encarei um Badminton as 8 da manhã, e a única coisa que entretia o público era a zoeira da torcida de apoiar atletas aleatoriamente e fazer cantos engraçados, simplesmente pelo fato das pessoas estarem empolgadas de vivenciar uma olímpiada de perto. Se fosse pra assistir somente entendedores do esporte, não sobrava nem 5% da arquibancada. Vamos parar de ser mal humorados e achar que tudo que fazemos é errado, houveram atitudes legais e erradas da torcida de todos os países, eu mesmo vi dinamarquês furando fila no Engenhão.

    • Paulo Roberto Ramos de Andrade

      Só no Brasil alguém é tão pequeno que acha que vaiar é ter má educação. Tá com medinho do que os outros pensam de você?

  • Revolveri Roberto

    povo de 3º mundo acha justificativa à todos atos lixuosos que fazem !!!

  • João Carlos Cordeiro

    Totalmente absurdo achar positiva a má educação dos brasileiros que vaiaram durante a Olimpíada!!! LAMENTÁVEL!!!

  • Rodrigo Araújo

    análise ridícula, elogio à falta de educação, quanta baixaria!

  • Rodrigo Araújo

    vaiar é falta de educação, cara-pálida! Elogiar falta de educação é o fim da picada! Quanta ignirância!

  • Tamaris Pavanelli

    Desde de quando falta de educação é estar envolvido com alguma coisa boa, teve um jogo de tênis em o juiz estava a ponto de soltar um calem a boca por favor, eu estava incomodada com a torcida, e olha que eu estava assistindo em casa.
    Povo sem noção, e acreditam que fizeram bonito, só aqui mesmo.

  • Ricardo

    não só vaias, mas a torcida vibrava nos erros de ginástica nas duas últimas apresentações quando os brasileiros ganharam prata e bronze. Não vejo somente um comportamento de futebol. É o desrespeito, querer levar vantagem, conquistar na marra, ser esperto…um amplo repertório mais que exemplificado pelos governantes. Enfim um enorme falta de educação e respeito

  • BlackWidow

    Falta de berço e falta de educação, inveja e dor de cotovelo…, características de gentalha do terceiro mundo e por conseguinte é uma característica do povo brasileiro…, já ficou na história como a “OLIMPÍADA DAS VAIAS”…, um título vergonhoso para carregar o resto da vida.

  • Arlo Fever

    Quanta estupidez escrita. Queria ver se quem escreveu precisar se concentrar para algo e alguém ficar importunando ao lado. Se bem que, pelo que foi escrito, precisa pensar, se concentrar, está além do “jornalista”

  • Eronildo Nascimento Dos Santos

    Achei o texto bem argumentado, mas que essa lenda do brasileiro cordial caiu, isso caiu!

  • Paulo Roberto Ramos de Andrade

    Ah, que ótimo ver os hipócritas v irem aqui pra criticar o texto… quem fala que vaia é sinônimo de falta de educação é mente pequena, que só está preocupado no que os outros pensam! Dá-lhe complexo que inferioridade!

  • https://witness.theguardian.com/assignment/533a98b6e4b03f2475aef6b0/951884 Regis Schwert

    Brasileiro vaiou muito porque é estúpido

  • https://witness.theguardian.com/assignment/533a98b6e4b03f2475aef6b0/951884 Regis Schwert

    Como alguém pode ter um mínimo de concentração com macacos gritando “buuuuuuuuuu”? Só o Tarzan!

  • Ráfaga Queiroz

    É egoísmo pensar dessa maneira. O fato da torcida brasileira agir dessa forma é a comprovação que nossa sociedade é indisciplinada, desrespeitosa e só quer saber de zoar (estou generalizando). E ainda temos a mídia que apoia esse tipo de coisa. Bom, parece que o filme nunca está queimado o suficiente, não é mesmo?

  • Luciano Ribeiro

    Alguém sabe me dizer se o guia de programação com os esportes da semana acabou?

  • Rodrigo SMC

    Vou ajudar ai quem não leu o texto. Em momento algum ele elogiou as vaias e falta de educação em determinados momentos da competição. De resto, elogiou o comportamento da torcida e o apoio a diversos atletas estrangeiros, principalmente por meio de zoeira.

  • Akinaga

    Quem é atleta tem quase obrigação de saber lidar com isso, competi por 8 anos e na opinião, torcida contra ou a favor faz parte do esporte e só estimula o atleta, assim como barulho fora de hora, faz parte da cultura do torcedor brasileiro, não só do torcedor de futebol, “zicar” o adversário é parte da diversão. falta de respeito é jogar objetos ou ser preconceituoso. Um atleta focado quase não ouve o que está na sua volta, ele só ouve/vê o que precisa ser feito naquele momento.