Alison e Bruno recebem a medalha de ouro no vôlei de praia masculino na Rio-2016 (AP Photo/Petr David Josek)

Brasil está na melhor Olimpíada de sua história, mas o resultado é frustrante, sim

Duas medalhas de ouro em um mesmo dia e a percepção da campanha brasileira na Rio-2016 muda muito. O Brasil foi para a 13ª posição no quadro de medalhas, seja por ouros quanto por total, e já está na melhor edição dos Jogos Olímpicos de sua história. São cinco medalhas de cada metal, passando Atenas-2004 (5 ouros, 2 pratas, 3 bronzes) na contagem tradicional e iniciando a ultrapassagem de Londres-2012 no total de medalhas (17, sendo que, em casa, já temos 15 entregues e 16 garantidas, e possivelmente ganharemos mais uma ou duas até o final).

Essa perspectiva histórica acaba com a ideia de fracasso, uma palavra que chegou a rondar a mente de torcedores após uma primeira semana muito econômica em pódios. [e um termo forte, que dá a sensação de desastre total. Não é o caso, mas não se pode perder de vista que o Brasil falhou, sim. E não há mais como mudar isso nos últimos dias de disputa.

POLÍTICA ESPORTIVA: Medalha? Contra tudo e contra todos, não precisamos delas

Ao longo do ciclo olímpico, o Comitê Olímpico Brasileiro estabeleceu duas metas: décimo lugar no total de medalhas ou 25 pódios. Só por milagre algum dos dois parâmetros será alcançado. Coreia do Sul e Canadá dividem a décima posição em medalhas, 18. O Brasil precisaria de quatro e que sul-coreanos e canadenses não ganhassem mais nenhuma. Difícil, pois os asiáticos devem subir ao pódio nas quatro provas que faltam no taekwondo. Se a questão forem as 25 medalhas, os brasileiros precisam de dez em três dias. O futebol masculino já tem uma garantida, vôlei masculino, futebol feminino e a canoagem de velocidade têm boas chances, o hipismo individual é uma possibilidade, o pentatlo moderno feminino nem tanto. Se todas elas tiverem sucesso, são seis medalhas. Faltariam quatro, e aí teriam de ser grandes surpresas, como algo no revezamento 4×100 metros rasos masculino, na maratona masculina, na luta ou no taekwondo.

Por mais que o Brasil tradicionalmente use a contagem que hierarquiza ouro-prata-bronze para ranquear os países, é correto para o gestor esportivo estipular a meta pelo total, como se todas valessem a mesma coisa. Subir muitas vezes no pódio mostra que a delegação foi competitiva em várias modalidades. Ter apenas muitos ouros pode ser uma distorção criada por excelência absoluta em poucos esportes, casos de Quênia e Jamaica no atletismo.

Aí que vemos o problema da campanha do Time Brasil em 2016. A comparação com as participações anteriores é generosa, pois mostra que subimos um degrau na escada. O problema é que os brasileiros competiam em casa, e o que se esperava (pela condição de anfitrião e pelo investimento realizado) era que se pegasse o elevador. A meta do COB ia por esse caminho, com evolução significativa nos resultados. E isso não aconteceu.

As autoridades podem até recorrer às medalhas prováveis ou possíveis que não se concretizaram, como o vôlei feminino, Fabiana Murer, Robert Scheidt, handebol feminino, Caio Bonfim na marcha atlética e algumas outras, mas ter sucesso em todas elas significaria que quase todos os medalháveis subiram ao pódio. Isso não existe em lugar algum. Todo país tem sua cota de insucessos e precisa considerar essa margem quando estabelecer metas de resultados olímpicos.

TORCIDA: Atleta vaiado no pódio olímpico? Aconteceu em Barcelona-1992

Melhor que elencar as quase-medalhas que não vieram é ver as medalhas que não passaram nem perto de vir. Tirando Poliana Okimoto na maratona aquática, a natação brasileira não foi competitiva. O basquete foi lamentável. O atletismo teve nomes esporádicos em uma delegação que passou despercebida no geral.

O Brasil falhou porque não soube usar sua condição de anfitrião dos Jogos para mudar de patamar no mundo olímpico. Estar entre os 15 melhores, qualquer que seja o critério da contagem, não é um resultado bom ou ruim, é um resultado que representa a realidade. Uma realidade que não mudou tanto quanto deveria.


  • Choupana Discos

    o brasil tem que investir em esportes chaves individuais, em que um talento pode obter varias medalhas…bolt e phelps sozinhos por exemplo turbinam o quadro de medalhas de seus países.

    a grã Bretanha investe absurdo no ciclismo, e mesmo se só um integrante da equipe se destacar esse único individuo pode trazer varias medalhas…cuba é potencia em boxe mas seus atletas só tem uma chance de conquista …
    o brasil percebeu isso com isaquias queiroz…ele ganhou duas e tem a chance de uma terceira;
    canoagem, remo, ciclismo, natação, atletismo, ginastica: se o brasil quiser ser uma potencia olímpica tem que dominar pelo menos um desses esportes.

    se aparecer uma fera em um deles já é garantia de varias medalhas…mas sem deixar de investir nos demais.

  • Evil Stewie

    Equivocada é essa percepção de fracasso, tendo-se em vista que as nações ditas olímpicas construíram e alcançaram esse patamar após um projeto de vários ciclos olímpicos. O Reino Unido é um exemplo disso, passaram várias olimpíadas em posições ruins, até alcançarem o top 3.
    Outrossim, apenas nesses dois últimos ciclos, o País passou a investir em esporte individuais, e já passou a dar resultados. Por sinal, tais esportes conseguiram bom número de medalhas. Há alguns anos a canoagem, p. ex., não era nem conhecida pelo público.
    Outrossim, esportes coletivos, outrora a grande fonte de ouros, têm capengado.
    Por outro lado, quem merece todas as críticas é a federação nacional de natação, que fez papel horroroso; não digo por não ter chegado a pódios, ocorre que a modalidade não mostrou sinal algum de evolução, já que apenas os veteranos conseguiram nadar nas finais, e também porque apostam bizarramente em torneios de piscinas curtas – que por sinal não estão nas olimpiadas.

    • Igor Rodrigues

      Cara, mais ou menos. O Brasil tem a segunda maior delegação da olimpíada e nesse cilco jogou um caminhão de dinheiro no esporte de alto rendimento. Austrália e Coreia do Sul fizeram o mesmo no ciclo que antecedeu seus jogos.

      Só que pelo tamanho do investimento e pela delegação que levamos, os resultados foram bem aquém do esperado, quase o mesmo de Londres e Pequim em total de medalhas. E a Rússia não levou a delegação do atletismo, o que abre mais o leque de possibilidades de medalha na modalidade.

      • Evil Stewie

        Não vejo as coisas por esse lado, não. O resultados são muito demorados, mesmo. Somente concordo que as projeções foram erradas por conveniências políticas, e são contrárias aos fatos naturais!
        O Pais tem uma das maiores delegações, por ser sede do evento. O investimento foi alto, ainda há muito para se trabalhar, mas considero que os resultados estão bons, já em que várias os brasileiros tem ganhado destaque, sim; mesmo vários que não medalharam. Há esportes que não haviam brasileiros na disputa há mais de 20 anos,a ex. do tiro e decatlo. Outros, após mais de 10 anos de desenvolvimento já alcançaram pódios, é caso da ginastica olímpica. Isso é motivo de celebração, pois nos jogos a nata do esporte está em competição.
        A verdade é que demora muito tempo para avançar posições nos quadros de medalhas. O top 10 não é alcançável da noite para o dia, haja vista que nossa cultura olímpica ainda está na fase infantil, e falta ainda incorporar as escolas e projetos infantis aos esportes individuais que rendem alto volume de medalhas; isso demandará ainda vários ciclos.

      • Fábio Peres

        O caminhão de dinheiro chegou relativamente tarde. Muitos atletas bateram na trave, chegando em finais, mas não conseguiram desempenho na “hora H”.

  • Lucas Diego

    Só saberemos de fato se esse legado olímpico irá dar certo, é manter a media pra próxima olimpíada em Londres, iremos terminar até essas olimpíadas, mas será que isso foi pelo projeto ou só pelo fator casa?

    • renan esteves

      Tóquio.

      • Lucas Diego

        Valeu pela correção.

  • Leo

    Tá certo que comparar com a China é covardia. Mas vejo esse caminhão de medalhas que eles estão levando como um resultado direto de 2008 e de um trabalho que começou quando muitos destes medalhistas nasceram.

  • Rodrigo SMC

    Olha, pra um país que costuma ficar em péssimas posições em rank de educação, saúde, IDH e lidera em rankings como o de homicídios pelo mundo, é até curioso ficar num Top 15 de uma Olimpíadas. Se isso fosse Brasileirão, não seria nem rebaixado hehe.

    Aliás, o Brasil é uma potência em paraolimpíadas, mas não vai ter a mesma atenção da mídia e público, infelizmente. Na última edição conquistou 21 medalhas de Ouro.

    • Fábio Peres

      O dinheiro que é pouco para as Olimpíadas é muito para as Paralimpíadas. Além disso, os atletas paralímpicos são mostrados como “exemplo de superação”, o que garante bastante prestígio – e muito sustento.

      • http://www.facebook.com/guzentercio Gustavo GR

        pelo que vi em outros comentarios do assunto, e ate o texto meio q falou, pra esse ciclo, foi investido money jamais visto antes no esporte olimpico…e realmente, acho que destacamos nas paralimpiadas por termos atletas que conseguem varias medalhas na nataçao, por exemplo

        e a motivaçao deles acho ate maior do que os que estao nas olimpiadas: vejo o caso do cara da canoagem, q foi ex bbb e mauricinho pitboy, mas que depois que ficou paraplegico, mudou atitude de vida

        sei la, eh subjetivo, mas acho que os paralimpicos, por terem dificuldades muito maiores, acabam se preparando mais…tipo, considero aquele cliche que, quanto mais dificil a situaçao, mais o BR consegue dar a volta por cima

        • Fábio Peres

          O dinheiro só chegou recentemente, e não foi aproveitado corretamente por todas as confederações. Cada caso é um caso.

  • Alexandre Rocha Do Nascimento

    Com todo o respeito. Até 1980 o Brasil tinha uma media de 2 medalhas por olimpíadas. Depois com 3 olimpiadas com boicote tivemos uma media de 6 medalhas. Depois que o Nuzmam assumiu nossa media subiu para 14 medalhas por olimpíadas.
    É uma evolução e tanto sair de 40o para top 15!
    Mais do isso só mudando o brasileiro.
    Que não valoriza a pratica esportiva.

  • Joao

    Não sei como isso pode ser feito, mas a solução pro esporte olímpico no Brasil é uma mudança cultural.

    O que brasileiro gosta mesmo é do seu clube de futebol. Ele gosta de ver os campeonatos que o time dele está disputando e em menor quantidade secar os rivais. Alguns vêem alguns jogos de campeonatos europeus e Champions League, mas é só. Tanto que no “país do futebol” a Globo sabe que é mais vantajoso passar um jogo qualquer da Copa do Brasil do que a final da Libertadores sem brasileiro disputando.

    Esporte olímpico precisa ser massificado. Atraindo mais gente, atrai mais qualidade, que atrai mais interesse, que atrai mais patrocínio, que gera resultados expressivos.

    Só não sei como fazer brasileiro, que mal vê o futebol que ele diz gostar, ver e se interessar com outros esportes.

    • http://www.facebook.com/guzentercio Gustavo GR

      bom, amigos meus que torcem para o time do outro lado da lagoa começaram a assistir sistematicamente volei depois que o cruzeiro se uniu com o sada e virou potencia

      na decada de 80 o volei do Galo tb dava audiencia, entao acho que, se os clubes de futiba começarem a abraçar outros esportes, mais publico vai ter…ate porque sao “atletico” ou “sport clubs”, mas so com futebol, hehe

  • Vicente Carranca BVB

    Considero de total importância, o investimento em esportes nos quais um atleta possa ganhar múltiplas medalhas, como o Isaquias, que sejam acessíveis do ponto de vista de estrutura, em vez desse direcionamento quase que único e absoluto em modalidades coletivas, onde é necessário uma “tuia” de gente pra arriscar beliscar uma medalha tão somente e, que se vir, vem só no fim dos jogos, já que esportes coletivos consomem todo o calendário olímpico.
    Minha lista de prioridades seriam esportes onde não haja uma hegemonia absurda (como chineses nos saltos ornamentais e tênis de mesa, e EUA, na natação, por exemplo), mas se diluam entre países mais “alternativos”, tais quais: levantamento de peso, boxe, canoagem (apesar de ser um pouco mais cara), atletismo, judô, taekwondo, karatê, ginástica artística, luta olímpica etc.
    Brasil pode muito bem fazer frente à Armênia, Azerbaijão, Geórgia, Cuba, Jamaica, Quênia, Etiópia etc.

    É investir na base, formar atletas em modalidades plausíveis, para formarmos campeões e criar uma base sólida para dar continuidade, já que brasileiro é apaixonado por vitórias e não por esporte. O primeiro passo pra forjar “a escola brasileira de tal modalidade” é ter um medalhista pra molecada criar apreço e ver que é possível chegar lá, seja um Silva, seja um Grael.
    Véi, eu sinto uma angústia monstruosa com nosso potencial adormecido.
    Olha a quantidade de negros que temos e somos inócuos em atletismo (Thiago Braz tirou esse coelho da cartola, mas sendo franco, ninguém esperava), somos um povo mestiço, com vários biótipos e possibilidades, nas mais variadas modalidades. Basta quebrar o “monoteísmo” do futebol, e ampliar mais investimentos na formação de atletas, já que até meu cachorro sabe que esporte muda vidas.
    Falta mesmo é boas políticas públicas e público-privadas de incentivo ao desporto.
    Um exemplo: isenção do imposto X para a empresa A que apadrinhe um projeto social tal, investindo, sei lá, 0,8X nesse projeto.
    Em vez da grana ir pro governo, quase sempre larápio, iria evitar esse atravesador e a efetividade do investimento seria ampliada.
    Mas eu sei que estou no Brasil e não haverá boa vontade política para tal desiderato. Mas as receitas são até simples.

    • luiz

      O problema é q não temos onde.

      Exemplo: sou de Guarulhos-sp e se eu quisesse ir praticar ou indicar qualquer pessoa pra praticar algo q não fosse futebol, eu não faria ideia de onde, teria de dar uma boa garimpada.

      E aqui vale a auto crítica a população de maneira geral(inclusive onde reside mto da minha crítica a quem critica o futebol feminino), q é a visão pré-estabelecida do q é atrativo ou não.

      Salve futebol, basquete há alguns anos, tênis com o Guga e o vôlei graças a gênios como o Bernardinho e Zé Roberto, nunca tivemos um esporte sequer q tivesse competidores em alto nível, q fizessem ao menos a gente parar para torcer.

      Bolt e Phelps provam q não é o esporte, mas a identificação q atrai. Podem dizer por ambos serem lendas, mas ter um atleta competitivo “nosso”, já basta para q mtos parem pra acompanhar.

      E o dinheiro chegou até, mas foi usado para treinar um grupo e não desenvolver as modalidades, o mais grosseiro dos erros.

      Esportes em geral são saúde, são educação, são redução de criminalidade (qtos não estariam fora do tráfico se tivessem uma vida esportiva por exemplo ou mesmo nas drogas, enfim).

      Mas estamos só jogando palavras ao vento lamentavelmente, pq enquanto falamos disso, eles buscam formas de piorar ainda mais a aposentadoria, enquanto sobem ainda mais o salário dos vagabundos do judiciário

  • Diego Souza

    Que texto – e raciocínio – surpreendentemente superficiais e ruins, nossa. Não se muda de patamar olímpico em quatro anos, tampouco se é possível afirmar que o Brasil “não soube usar de sua condição de anfitrião nos Jogos” sendo que os Jogos nem sequer terminaram ainda (!). Essas duas medidas a gente terá daqui um tempo, é nas próximas Olimpiadas que veremos o efeito da Rio 2016, se positivo ou não. É nos próximos anos que veremos os resultados crescentes (ou não) dos últimos 4 anos. Em termos de planejamento e investimento, 4 anos não é nada.

  • Marcio AP

    Mas ai deve entrar na conta por exemplo o fato de vivermos até hoje a plata de Sidney no revezamento, o que foi feito desde então, vejo meus alunos nos colégios que trabalho usando a quadra para peladas, e para envolver garotas queimada e mais nada.