Enquanto em Tampa, na Flórida, Blackhawks e Lightning abriam a série decisiva da Stanley Cup para dar fim a mais uma temporada da milionária NHL, um pouco mais abaixo, ao sul da fronteira, alguns jogadores distribuíam trancos pura e simplesmente por amor ao esporte. Não que Steven Stamkos ou Jonathan Toews não amem o que façam. Muito pelo contrário, parecem amar. Mas são profissionais com salários altos. O Pan-Americano de Hóquei no Gelo de 2015 foi disputado somente por amadores. Nesse cenário, a Seleção Brasileira conquistou a inédita medalha de bronze.

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A edição 2015 foi a segunda do evento, mas tão pioneira quanto a primeira, de 2014. Desta vez, tivemos uma nação a menos, pois o Canadá, campeão do ano passado, não participou, o que é uma pena. Por mais que fosse amadora, formada por jogadores de ligas semi-profissionais ou até inativos, uma seleção com a marca Hockey Canada atrairia alguma atenção.

Mas tivemos um time a mais. Se ano passado foram Argentina, Brasil, Canadá, Colômbia e México, desta vez, Argentina A, Argentina B, Brasil, Colômbia, México Sênior e México Sub-17. As federações de Chile, Venezuela, Equador, Estados Unidos e Marrocos (?) foram convidadas, mas não mandaram seus times. Assim, tivemos apenas seis seleções de quatro países. Vamos lá.

O México foi, novamente, a sede do campeonato sancionado pela IIHF e realizado dos dias 3 a 7. O formato era um pouco diferente. Ano passado, tivemos uma rodada de grupo único com os quatro melhores fazendo semifinal e final. Desta vez, pontos corridos.

Recapitulando a participação brasileira em 2014. Derrota de 16 a 0 para o México, 5 a 3 para a Argentina, 16 a 0 para o Canadá e 14 a 0 para a Colômbia. Resultados horríveis, participação honrosa. Estávamos começando a patinar, afinal. O Canadá ficou com o ouro, México com a prata e Colômbia com o bronze.

Bom, melhoramos e muito! Pela primeira vez, a Seleção Brasileira foi previamente convocada pela Confederação Brasileira de Desportos no Gelo — a que disputou em 2014 teve o aval da CBDG, mas se organizou independentemente. O técnico americano Jeans Hiderlie foi o responsável pela convocação. Logo na estreia, contra o México Sub-17, um resultado histórico: vitória por 5 a 2, a primeira da Seleção em todos os tempos.

Na quinta-feira, o Brasil enfrentou a Argentina B. Vitória por 7 a 0 e mais um recorde, o primeiro shutout. Para todos os efeitos, ganhamos de um time juvenil e de uma seleção reserva. Mas, na prática, foram as primeiras vitórias oficiais do Brasil, afinal, estavam inscritas em um torneio adulto. Vieram os jogos contra seleções principais. Caímos na real. Derrota por 3 a 0 para a Colômbia e 11 a 1 para o México. Comparando com o ano passado, melhoramos, ué.

Mas, aí, o verdadeiro filé mignon do torneio, pelo menos pra gente. A rodada final colocou Brasil e Argentina A, a seleção principal dos hermanos, frente a frente na briga pelo bronze. Algum gênio anônimo (até parece coisa do Galvão Bueno, mas não acho que tenha sido ele) disse que de Brasil e Argentina sai faísca até na bola de gude. Cenário melhor para uma decisão, então, não poderia haver. E o Brasil venceu a Argentina por 6 a 1 para conquistar sua primeira medalha — de quebra, primeira vitória sobre uma seleção principal. Com perdão do clichê, esse bronze vale ouro.

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Precisamos compreender e reconhecer que Bruno Gomes, Daniel Alves, Henrique Degani, João Nogueira, João Vasconcelos, Julio Baptista, Luiz Almeida, Thomas Camillo, Yan Graciano, Daniel Vannuchi, Gustavo Tecchio, João Reis Gonçalves, Jose Guilardi, Luis Custódio, Marcelo Campos, Allen Ruane e Daniel Hammerle não precisam ganhar jogos para ser vencedores. Se aventurar em terras estrangeiras para vestir um pano verde, amarelo, azul e branco com o nome BRASIL e representar o país com patins de gelo, sem o apoio grandes patrocinadores ou veículos de imprensa, por si só, já é uma grande vitória. O que vier é lucro. E veio, uma medalha de bronze!

E a medalha de ouro? Surpresa, também. Em um jogo emocionante, a Colômbia venceu o México nos pênaltis após empate por 3 a 3 para garantir o título inédito. Com a vitória sobre a Argentina B, o México Sub-17 passou a própria Argentina A e ficou em quarto lugar no masculino.

Masculino? Sim, porque também teve torneio feminino. E mais pioneirismo: o Brasil também esteve representado. Bom, mais ou menos. Apenas cinco atletas brasileiras puderam comparecer e o time foi completado com mexicanas, sendo, assim, chamado na tabela de Combinado Brasileiro. Foram bem, na medida do possível. Derrota por 3 a 2 para a Argentina, 11 a 1 para o México, 3 a 0 para o México Sub-18 e 5 a 1 para a Colômbia. No feminino, o ouro ficou com o México, a prata com a Colômbia, bronze com o México Sub-18 e o representante brasileiro ficou em último. E daí? Vencedoras, também, só em participar.

Foi uma semana histórica para o hóquei latino, especialmente o brasileiro. Que venha 2016!

A CBDG só precisa melhorar um pouco em informação. Sei que falamos de esportes que não recebem nenhuma atenção da mídia de massas, mas com Internet pode-se informar sem pompa. Por exemplo, alguém, com um celular na mão, poderia tuítar cada gol do Brasil. Durante o torneio, o Twitter oficial da confederação registrou apenas três mensagens, nenhuma com resultados. O Facebook também falha nesse sentido e alguns poucos interessados que pediram informações e demonstraram vontade de acompanhar os jogos ficaram sem resposta. Até o fechamento desta coluna, nenhum dos canais oficiais havia noticiado os resultados históricos.

A iniciativa de montar uma seleção é louvável. Praticar esportes de inverno no Brasil deixa de ser irreal para ser apenas “surreal, mas possível”. Só que esporte, especialmente coletivo, não depende apenas de atletas, mas também de público. Quem sabe, no futuro, possamos sonhar com o ouro Pan-Americano e essa vitória contra o México Sub-17 e a medalha de bronze virem apenas estatísticas. Sonho impossível? Ter uma equipe no gelo, um dia, também pareceu.

Coincidentemente, ontem, a rica Seleção Brasileira de Futebol, de uma confederação prestes a ser investigada por poderes públicos, derrotou outra Seleção Mexicana por 2 a 0. Nem me importou tanto. Os 5 a 2 no México Sub-17 valeram muito mais, pelo pioneirismo e pelo amadorismo, que, para mim, também é comprometimento. Mas, principalmente, por ter tido peso para colocar o Brasil no pódio.

Quando vou à coleção pessoal de camisas de hóquei (que, inclusive, teve mais uma adicionada nesse último fim de semana), a que mais me orgulha é a da Seleção Brasileira — de hóquei em linha, mas que hoje também é encampado pela CBDG. Enfim, uns caras que posso olhar com orgulho e pensar “Putz! São brasileiros, como eu”. Este time, sim, ganhe ou perca, é belo e forte impávido colosso, seja lá o que isso quer dizer.


  • Felipe Rosa Machado

    parabens aos jogadores!!!! :)
    sei muito bem como é dificil jogar um esporte amador no Brasil,,