Jarryd Hayne passa pela marcação do Houston Texans (AP Photo/Patric Schneider)

A NFL bem que poderia ouvir o que Jarryd Haynes tem a dizer sobre sua passagem nos 49ers

Físico adequado, boa capacidade de ler o campo e velocidade. Jarryd Hayne parecia uma aposta adequada como reforço inusitado para um time da NFL. A estrela do rugby league australiano chegou ao San Francisco 49ers para ajudar na remontagem de um elenco que ruiu rapidamente. No final das contas, teve algumas oportunidades, mas acabou dispensado.

Nesta semana, o australiano disse desistiu da investida norte-americana por falta de perspectiva para um jogador com seu perfil: um atleta já no auge que vem de outra modalidade. E Hayne tem um pouco de razão nisso.

A estrutura do futebol americano é monolítica. Os jovens têm o primeiro contato com a modalidade na escola, os melhores ganham a oportunidade de jogar competições universitárias, que funcionam como as categorias de base da liga profissional. Alguns são selecionados para a NFL, outros ainda entram como parte do elenco de treinamento e, com muita sorte, recebem oportunidade no time principal. E só.

É um sistema bem eficiente, mas ele se fecha em si próprio. As ligas de outros países – mesmo a CFL – não alimentam a NFL com talentos. Modalidades que teriam espaço atletas se converterem ao futebol americano, como rugby union e rugby league, menos ainda. No final das contas, se um jovem não consegue entrar no sistema universitário, sua chance de ir à NFL é muito pequena. Casos como o do alemão Moritz Böhringer, draftado pelo Minnesota Vikings do Schwäbisch Hall Unicorns em 2016, devem demorar a se tornarem comuns.

Uma forma de a NFL ter mais flexibilidade seria criar uma liga de desenvolvimento. Ela poderia reunir estrangeiros que mostraram potencial em ligas de seus países, universitários que não foram contratados por franquias profissionais e jogadores que estavam na liga, mas perderam espaço por qualquer motivo. Elas serviriam para preparar ou dar uma nova chance a dezenas de atletas, muitos deles potencialmente úteis para a única grande liga da modalidade no mundo.

A NFL Europe teve esse papel, e dela vieram jogadores como Kurt Warner, Adam Vinatieri, Jake Delhomme e Dante Hall. No entanto, sua operação era muito custosa – organizar uma liga do outro lado do oceano, em países sem grande público para futebol americano, utilizando grandes estádios – para se manter como liga de desenvolvimento. Mas ela mostrou como o futebol americano, como modalidade, se beneficiaria de um caminho extra para desenvolver atletas.

A NFL poderia criar uma liga de desenvolvimento como a Triple-A da MLB ou a D-League da NBA, montando equipes em grandes cidades sem equipes profissionais, como Las Vegas, San Antonio, Sacramento, Portland, Columbus, Oklahoma City, Salt Lake City, Omaha, Albuquerque, Rochester, Memphis e Louisville. Se houver receio de ela concorrer com a própria NFL e com o universitário, essa competição poderia ter disputa entre março e junho. Outro caminho seria realizar uma parceria com a CFL – e aí é preciso ver se os canadenses concordariam – para usá-la como auxílio.

O problema é que a NFL só se preocupará com esse tema no momento em que entender que ele traria jogadores com nível de segunda ou terceira rodada do draft, tornando-se uma fonte interessante de talento. Enquanto essa liga de desenvolvimento for vista como segunda oportunidade para jogadores que apenas “comporiam o elenco”, não haverá motivação para as franquias reduzirem suas margens de lucros para investir nisso. Pior para Haynes, que até mostrou potencial, mas precisaria de uma ou duas temporadas dentro do futebol americano para ter nível de jogo suficiente para fazer sua carreira nos Estados Unidos.


  • Rico Mônaco

    Várias vezes se tentaram criar outras ligas, até com o Trump em uma delas, como vc já escreveu aqui, mas sempre a NFL conseguia abafá-las…Mesmo ligas de verão….

  • EpsilonEuskadi

    Tá aí o problema da NFL: monopólio e arrogância (como foi quando começaram a documentar os primeiros casos de TCE nos jogadores da NFL aposentados).

    Os caras tem tanto receio de criar alternativas para jogadores que estão fora da Liga que isso acaba forçando a desistência de muitos deles que teriam potencial ao menos para compor roster.

    Associe a isso com o aumento da popularidade de outros esportes, como futebol e rugby league/union, e a longo prazo deve causar problemas para as franquias conseguirem jogadores.